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Bater no ceguinho

Uma declaração lamentável de António Borges suscitou respostas consensuais, tendo sido muitos os que, à direita e à esquerda, gastaram uma boa parte da semana a bater no ceguinho. O ceguinho não foi, todavia, batido por ser indefeso, como a expressão popular se faz lamento, mas por não querer ver. O problema é que é da cegueira de António Borges e dos que defendem o mesmo modelo económico que não poucos males vêm ao mundo.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
7 Out 2012

Dois prémios Nobel da Economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, têm insistido em denunciá-los, razão por que, por estes dias, têm sido abundantemente citados na imprensa de vários países europeus.
O mais recente livro de Joseph Stiglitz, O preço da desigualdade, tem sido o pretexto imediato para uma série de entrevistas, recensões e textos de opinião. Nesse livro, o economista nota que, nos últimos trinta anos, os ordenados de 99% dos americanos não foram aumentados mais do que 15%, enquanto uma elite de 1% aumentou os seus vencimentos 150% (no 0,1% superior, o aumento ultrapassou 300%). Para Joseph Stiglitz, esta captação de dinheiro pela elite não se encontra ligada a um boom da produtividade dos administradores ou dos banqueiros. O contributo deles para a sociedade foi mesmo, frequentemente, negativo. A economia do escoamento, diz o economista numa entrevista concedida ao Libération, venceu: as riquezas sobem até aos ricos, mas não voltam a descer. “O mito do crescimento equitativo já não é credível: privatiza-se o lucro, socializam-se as perdas…”
Joseph Stiglitz fustiga também o “fetichismo orçamental” e a “austeridade demente”. Trata-se de “uma ideologia politicamente simplista e economicamente estúpida”, cuja mensagem é: “Sê bom, gasta pouco e tudo correrá bem”. Apesar de o Nobel da Economia ficar, com certeza, reprovado nas cadeiras de António Borges, ele garante que nenhuma economia recuperou de uma recessão com austeridade. “A austeridade provoca a anemia da economia, aumenta as desigualdades e agrava o défice”. O resultado, diz, é o euro encontrar-se no corredor da morte, com a execução a ser constantemente retardada”.
Para estimular a economia, Stiglitz preconiza planos de relançamento massivos. “É uma cegueira este empenho na austeridade, como a História o demonstra. A Alemanha tem medo de que volte a inflação de entre as duas guerras mundiais. Berlim tem uma memória seletiva. É que não foi a inflação que levou Hitler ao poder. Foi o desemprego massivo. É aí que se encontra o trauma económico histórico: não é possível viver em sociedades em que o desemprego, como sucede em Espanha, ultrapassa os 25% e mais de 50% entre os jovens”.
O que Paul Krugman tem dito é idêntico. Também para este Nobel da Economia, que António Borges igualmente chumbaria, “impor mais austeridade não vai servir para nada”. Num texto intitulado “A loucura da austeridade europeia”, publicado no diário El País no domingo passado, o economista invetivou os políticos e funcionários europeus “supostamente sérios” que, ao exigirem mais sofrimento, estão a atuar “de forma verdadeiramente irracional”.
Citando Krugman e Stiglitz, Christophe Geffroy, director da revista La Nef, escrevia no editorial do número de outubro, que este sistema económico perverte os que com ele lucram, fazendo-os perder todo o sentido moral: “Como é que os banqueiros que praticam um ‘crédito predador’ – que, como eles sabem, vai arruinar as pes-
soas pobres – podem não ter qualquer sentimento de culpa? Como é que um administrador ganhando mais de 300 vezes o salário de base de um dos seus empregados pode deslocalizar e despedir pessoal sem qualquer vergonha?” Que ninguém se engane, prossegue Geffroy, “o liberalismo económico que preconiza a liberdade dos mercados é ontologicamente o mesmo que reclama a total liberdade de costumes e de comportamentos: na base, encontra-se o mesmo individualismo egoísta, o indivíduo-rei que deve poder fazer tudo o que lhe apetece, sem qualquer referência à noção de bem, expurgada pelo liberalismo!”




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