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A relação de posse das coisas

A história é real e demonstra a mentalidade daqueles que acordam ricos de um dia para o outro sem nada terem feito por isso e dos que esbanjam facilmente aquilo que não lhes custou a ganhar. Quem não sabe o que custa a vida, dificilmente saberá dar valor aos bens herdados. É por essas e por outras que, para cargos governativos, só deviam poder ir pessoas com experiência de vida demonstrada e com qualidade e preparação técnica. Quem não aprendeu a governar a sua vida não saberá nunca governar a vida dos outros.

M. Ribeiro Fernandes
7 Out 2012

Um dia destes, quando chegava a casa, deparei com uma cena estranha. Dois jovens estavam a depositar, muito divertidos, junto aos caixotes de lixo, dezenas de garrafas de vinho do Porto, de whisky, de licor, de vinhos engarrafados à mão, de aguardente caseira envelhecida e de outras bebidas finas. O inédito da situação causou espanto em quem passava e foi-se passando a palavra. Dentro de poucos minutos, havia um corrupio de gente a vir apanhar e levar para casa garrafas de bebidas. E eles continuavam, com um ar de arrogante diversão, a levar mais garrafas para o pé dos caixotes de lixo. Devem ter levado várias dezenas. Vi pessoas a telefonar para outras a dizer-lhe que, se quisessem garrafas de vinho do Porto ou de Whisky, viessem apanhá-las depressa, antes que se esgotassem.

1. Que se passava? Aqui perto, vivia um casal, que bem conheci, e que, no espaço de dois ou três anos, ambos faleceram. Ao contrário do que é habitual, ele era bastante mais novo do que ela, um género de Maria Papoila endinheirada, com tiques de peixeira no modo de conversar. Tinha sido empregada e companheira de um construtor civil bastante rico e mais velho do que ela, que já não conheci. Deve-lhe ter deixado bastante dinheiro, a avaliar pelo ouro que exibia e pelo modo como vivia. Diz-se que, depois de ele ter morrido, passou a ser chamada D.ª Mariazinha. O dinheiro tem destas coisas…
Falecido o companheiro e herdados os seus bens, passou a viver com um outro, um emigrado dos lados da Guarda para Lisboa, que terá começado por ser polícia e depois passou a escrivão do tribunal: um homem simpático, bem- falante, trabalhador, prestável, que gostava muito do convívio. Um dia, mostrou-me a grande coleção de garrafas de bebidas finas que enchiam a cave do andar que tinha aqui no prédio. Era uma espécie de sala de troféus do seu trabalho, de pes-
soas a quem ele fez favores e o recompensavam por isso, sobretudo pelo Natal e Páscoa.

2. Logo que atingiu a idade legal, reformou-se para poder viver mais descansado e gozar o que tinha poupado durante tantos anos de trabalho. Como continuou a ser um homem com a cultura rural de onde viera, esperava ansiosamente a reforma para arranjar a casa que tinha lá na sua terra e por lá viver o mais tempo que pudesse, embora sem cortar com a vida de cá, por causa da sua companheira. Só que, quando menos esperava, a vida pregou-lhe uma partida: pouco tempo depois de se reformar, apareceu-lhe um cancro, que depressa o vitimou.

3. Como era bastante mais novo do que ela, havia a expetativa de ser o último a morrer e os bens reverterem para os sobrinhos dele, que o vinham visitar amiúde; mas, aconteceu tudo ao contrário: tudo quanto era dele passou, de repente, para os sobrinhos dela. E foi assim que, após a morte dela, apareceram os tais jovens, que se sentiam promovidos ao passarem a viver numa luxuosa moradia que ela herdara e que vieram esvaziar a cave do apartamento em que eles também passavam a maior parte do tempo. Entraram como gente da lota e
saíram como burgueses endinheirados. Mas, há coisas que o dinheiro não dá, assim de repente: não dá a educação nem o respeito pelos sentimentos dos outros. Comportaram-se como bárbaros que se divertiam a deitar para o lixo a memória dele, num gesto de ostentação de novorriquismo.

4. A uma pessoa que assistia àquele espetáculo ouvi este comentário: poupar para quê? Para deixar para gente como esta que, mal a pessoa fecha os olhos, atira tudo para o lixo e ainda gozam com a memória de quem lhes custou a ganhá-lo?
As pessoas que o conheceram sentiam-se magoadas porque as coisas guardam as marcas dos seus donos, contam a história da sua vida. Há energias suas que ficam gravadas nelas. Diz o povo que as coisas conhecem o seu dono. É uma intuição curiosa que, para além de legitimar o trabalho como forma de posse das coisas, mostra como o sentimento também informa essa relação. Ainda não sabemos explicar esse fenómeno, mas sentimo-lo.




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