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Espetáculo e eficácia

O jogo foi lindo. Muito lindo. Os nossos tiveram quase 90% de posse de bola e movimentaram-se no relvado com arte e com alma. Os passes, certeiros, originaram um curioso rendilhado. Foi um baile maravilhoso. Tudo afinado. Tudo certinho.

Silva Araújo
4 Out 2012

Mas neste lindo espetáculo não houve golos. Os bailarinos não conseguiram rematar à baliza. E quando se trata de competir, os golos é que contam. Quem não marca, empata ou perde. Por linda que seja a movimentação dos futebolistas dentro das quatro linhas.
Espetáculo e eficácia. Se tivesse havido golos, tudo bem. Muito bem. Muitíssimo bem. Sem golos, que adiantou o espetáculo? Este não retira a equipa dos últimos lugares da tabela classificativa.
 
Algo de semelhante acontece, muitas vezes, na vida. Privilegia–se o espetáculo e menospreza-se a eficácia.
Há na nossa vida pública gente muito bem preparada para o espetáculo. Muito bem falante. Para quem o importante é anunciar o que se vai fazer, mesmo que se não faça. O importante são os discursos, são os projetos amplamente divulgados. São as entrevistas e as fotografias nos Meios de Comunicação Social. Mas quanto a resultados…
 
Que a luz se não esconda debaixo do alqueire. Que quem faz obra a dê a conhecer, até para que isso sirva de estímulo a outros que se poderão sentir tentados a imitá-lo.
Uma coisa, porém, é fazer obra, e outra, bem diferente, fazer obras, que às vezes ficam às moscas, não têm o aproveitamento necessário ou constituem verdadeiros elefantes brancos.
Em vez de se anunciar o que se vai fazer, que se faça.
 
Vivemos numa sociedade em que predomina o culto da imagem. Onde o parecer se sobrepõe ao ser. Onde o que interessa é o aparentar, o dar a impressão de que. Onde certas pessoas têm a preocupação de andar sempre na crista da onda e de manterem voltados para si todos os holofotes disponíveis. Vai-se, depois, analisar a rea-
lidade, e é tudo vazio. Tudo soa a oco. Insufláveis. Simples insufláveis, e nada mais. Balões coloridos que divertem e distraem as crianças mas que, no seu interior, nada têm.
 
Não há como resistir à tentação do espetáculo e do palavreado e deixar que as obras falem por si. Assim fez Jesus quando disse aos emissários de João que lhe contassem o que viram. Também aqui vale o célebre dito segundo o qual as palavras voam, mas os exemplos arrastam.
 
É este um dos pecados dos nossos dias e de que a própria Igreja, na atuação de alguns dos seus homens, nem sempre está isenta. Há a preocupação dos grandes encontros, das atividades de encher o olho, mas quem deveria estar disponível para atender as pes-
soas nem sempre consegue tempo ou disposição para isso.
A preocupação com o vistoso e com o folclore pode levar a que se gastem energias, tempo e dinheiro com assuntos mais que secundários, distraindo-se e distraindo do essencial. Pode levar a que haja reuniões a mais e uniões e trabalho a menos. Pode levar a que se alienem as pessoas, fazendo-as viver num outro mundo. Pode levar a catadupas de propaganda, quando o que importa é a ação. É saber estar junto das pessoas. É conhecer e realidade dos problemas e ajudar quem os sente a encontrar soluções ou até, se for caso disso, a resolvê-los.
 
É mais que urgente a formação de pessoas cada vez mais conscientes do que são e do que podem. Dos seus direitos e dos seus deveres. Mas a formação das pes-soas não dá nas vistas. Não vai para o currículo. Não é tema de primeira página nos jornais.
Há um texto muito lindo do falecido D. Hélder Câmara acerca da importância do alicerce. Se o tivesse à mão não deixaria de o reproduzir.
Mas ser alicerce é saber fazer trabalho que ninguém vê. É saber trabalhar no anonimato. No entanto, é a solidez dessas pedras enterradas e escondidas que aguenta a estrutura que todos admiram. Se os alicerces falhassem, tudo ruiria.
 
Como admiro o trabalho socialmente ignorado de tantas mães que, depois de uma noite mal dormida ou quase não dormida porque o bebé não parou de chorar, se levantam manhã cedo para o levarem à creche ou ao infantário e depois seguirem para o posto de trabalho, onde só valem pelo que produzem e ninguém cuida de saber se a quebra de produção se deve ao tal trabalho noturno de que ninguém soube nem quis tomar conhecimento!




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