Fotografia:
Gestão nada brilhante

O título tinha-o já escolhido e o conteúdo também. A conclusão era a do título. O texto versava sobre os desastrados e irresponsáveis governantes que fizeram do nosso país propriedade sua, não respeitaram os legítimos e soberanos donos, metendo-nos em pouco tempo (onde é que nós estávamos?) numa encruzilhada de onde dificilmente sairemos.

Luís Martins
2 Out 2012

No desenvolvimento do tema, seria apresentado o exemplo de Rui Brilhante, um político que quis ser gestor para continuar a ser político, um verdadeiro case study da gestão na versão “quando se é poder”. No entanto, depois de, no final da última sexta-feira, me terem dado a ler uma folha A4 sobre a indignação de várias pessoas com o que se estava a passar numa importante instituição pública com sede na cidade de Braga, a passar por um processo de reestruturação, resolvi mudar de página, recuperando, contudo, o título, por o achar ainda assim ajustado ao novo enquadramento. Não faltarão oportunidades para recuperar aquele primeiro assunto, até porque está na berra a discussão sobre a qualidade dos nossos políticos.
Indo então ao ponto que me fez mudar de página. Relativamente ao que aí se diz, na tal folha de papel, extrato de uma conversa num sítio do ciberespaço, o tal processo de reestruturação implicou mudança de cadeiras (com a consequente manutenção de uns, saída de outros e convites a novos elementos), vários meses de expetativa e de muita ansiedade. Acresce que o dito cujo não terá sido pacífico, por erro primário, logo, de palmatória, alegadamente por ter havido desrespeito por vários colaboradores da instituição e por outras falhas graves de gestão do processo.
Não terá sido caso singular. Infelizmente, na administração pública, a gestão descuida aspetos críticos, como o das relações humanas, quase sempre por falta de competência dos responsáveis (normalmente saídos da atividade privada), impreparados para funções públicas que só desempenham intermitentemente e que abandonam logo que o poder político muda. Perdem-se, assim, oportunidades cruciais para se fazer diferente, quando há recursos internos que certamente fariam melhor pelo conhecimento que têm das organizações.
Fiquei a pensar que, afinal, é por esta e por outras que o país não ata nem desata e que quem nos trouxe até aqui, ao fundo do poço – senhores de um cargo público, com poder transmitido ainda que indiretamente pelo povo, abusam da confiança e fazem sua a quinta à revelia dos verdadeiros donos, pode ter continuadores. Há-de haver quem controle e afaste os seguidores de tais práticas.

Não raro há quem se convença que as suas escolhas são as melhores e se lamente quando outros têm perspetiva diferente. Mas pode estar enganado. Uma nódoa pode cair no melhor pano. Basta que o chefe de mesa seja distraído ou lhe falte maturidade para o serviço. Ninguém é perfeito, a começar pelo autor desta crónica. O cotovelo dói a todos, independentemente da religião, da cor da pele, da profissão ou do partido político. Não se pode ver erro em tudo aquilo em que não nos revemos ou com que se não concorda. O que está escrito no tal sítio do ciberespaço é uma visão parcial. Desde logo, não considera que o partido que governou o país até meados de 2011 continua muito, mas muito bem representado na estrutura dirigente da instituição em causa. Melhor  do que qualquer outro partido. Aliás, estranho é não haver, no atual elenco, ninguém do partido maioritário no distrito de Braga. Querem mais desprendimento do partido que atualmente governa o país e que é maioritário neste distrito, não colocar nenhum dos seus militantes?
Mas pode haver outro entendimento. Ver os melhores só no nosso âmbito de influência, pode ser tendencioso. Quase sempre é. Natural é encontrarmos um ou outro elemento que sirva a organização fora da nossa família política. Mas não é normal que se veja a maioria dos melhores na oposição. Quando isso acontece, algo não bate certo. Em qualquer situação, terá havido um erro de casting na seleção do gestor: seja porque este não é o que disse e pareceu que era, nem pensa como disse que pensava, seja porque quer prejudicar deliberadamente quem representa, aliando-se ao adversário.
Alguns acham que a gestão pública não precisa de ter sucesso por não visar o lucro, fazendo sua a quinta que tem proprietários constituídos. E, apesar de avisados, insistem, mesmo sabendo que a propriedade ficará em pantanas. É por isso que o país está como está. Há-de haver quem evite não apenas o descrédito de quem usa o poder discricionário, mas também da outra parte que negociou o contrato. Também acho que “isto não pode ficar assim”, mas por razões diferentes.




Notícias relacionadas


Scroll Up