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Santificar o desemprego

No próximo dia 2 de outubro, ocorre mais um aniversário desse dia em que S. Josemaria “viu” o Opus Dei, ou seja, que Deus queria uma instituição na Igreja Católica que recordasse que todos estamos chamados à santidade, no lugar, nas circunstâncias e no trabalho que exercemos.

Maria Amélia Freitas
1 Out 2012

Para quem teve oportunidade de ver o filme “Encontrarás Dragões” de Roland Joffé, esse dia está recriado numa cena em que Josemaria, juntamente com pessoas de todas as profissões e condições – novos, velhos, mais ou menos pobres, sãos, doentes, homens, mulheres, enfermeiras, operários, engenheiros – se debruçam para uma espécie de cave onde podem contemplar a oficina de carpinteiro em que Jesus, o Filho de Deus, trabalha afincadamente. Não creio que tenha sido exatamente assim, mas o significado é esse: todos temos que aprender desse trabalho contínuo, árduo, monótono e normal, bem feito, mas igual a tantos outros, que Jesus exerceu em Nazaré durante a maior parte da sua vida neste planeta.
Recordo bem a primeira vez que entrei num centro do Opus Dei do Porto – tinha uns 14 anos? – e de me perguntarem o que é que eu sabia sobre a Obra. Eu tinha lido vários livros e revistas, julgava que estava bem informada, pelo que a resposta não se fez esperar:
– Que ensina que todos podemos ser santos!
– Sim – replicaram-me – mas através do trabalho profissional.
Lembro-me que fiquei surpreendida com o esclarecimento e perguntei a mim própria: “Como é que se pode ser santo sem trabalho profissional?” Naquele momento, aquilo pareceu-me uma redundância e não conseguia lembrar-me de alguma situação ou pessoa que não trabalhasse.
Pois agora toca-me, como a uma percentagem considerável de europeus, santificar o desemprego e isto dá imenso trabalho. É que o trabalho não se mede pelo valor da remuneração, mas pelo valor de quem o faz: pela perfeição, profissionalismo, pelo amor com que desempenha cada tarefa. Por isso, que alta categoria podem chegar a ter as tarefas domésticas, a receção de um cliente, o estar
doente ou, paradoxalmente, o estar desempregado/a!
E como se santifica então o desemprego? É fácil a resposta: procurando emprego ou tentando criá-lo, se existe possibilidade. A realidade é bem mais árdua. É necessário recorrer a meios naturais e sobrenaturais: cumprir as tarefas que o Centro de Emprego nos impõe pontualmente, com tenacidade, e apesar de nos parecerem perfeitamente inúteis e humilhantes; fazer e mandar currículos variados, adaptados e rebaixados e rezar para que alguém lhes dê atenção e precise dos nossos serviços. Aumentar as nossas qualificações, descobrir competências, frequentar essas ações de formação que talvez nos vão servir para alguma coisa. Não perder o tempo na TV ou no café, manter-se ocupado, com um horário de levantar, deitar e tarefas concretas que nos façam sentir e ser úteis e, se possível, nos rendam alguns euros. E entretanto, tentar perceber que esta situação tem algum sentido valioso, que Deus a permite para que nos apoiemos noutras referências que não o dinheiro, o bem-estar, a consideração dos outros ou a nossa autoestima. Talvez Deus, a Família ou os amigos a quem dedicamos tão pouco tempo e atenção.
Existem aqui imensas potencialidades que é preciso não desaproveitar. Deus queira que, para todos os que temos por trabalho o desemprego, este tempo seja o mais curto possível e se transforme numa oportunidade de crescer por dentro.




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