Fotografia:
Agulha num palheiro

A manifestação de descontentamento do passado dia 15 de setembro demonstrou a maturidade democrática de um povo que, sem necessidade de partidos políticos, associações de classe ou sindicatos, soube mostrar ao Governo o seu repúdio veemente pelas medidas que anunciara tomar. Netos e avós, pais e filhos, tendências ideológicas díspares e até antagónicas vieram à rua, como se fossem para um piquenique. Por todo o país souberam dizer ao Governo que tivesse atenção no que queria fazer porque não estavam nada de acordo.

Paulo Fafe
1 Out 2012

Um jornal estrangeiro disse, “os portugueses protestam, mas continuam pacíficos”, para arrelia de uns tantos “caudilhos” que gostariam de ver vidros quebrados, automóveis incendiados, montras estilhaçadas, pneus feitos tochas, ainda que alguns revolucionários de aluguer tentassem atiçar a labareda que não arde. Na manifestação que fizeram em frente ao Palácio de Belém, aquando da reunião do Conselho de Estado, notou-se, no entanto, não apenas um repúdio ao Governo, mas  um claro divórcio entre a sociedade portuguesa e os seus políticos. A do passado sábado já teve maestro e partitura. Os portugueses estão contra a política partidária que temos atualmente. O PS, porque depois de provocar o naufrágio tenta construir a todo o custo uma jangada dos pretextos à procura do rio Letes. É preciso não ter vergonha na cara. O CDS, porque, no passado, acabou o casamento com Mário Soa-res e, no presente, aprontava-se para fazer o mesmo com Passos Coelho. Quem não consegue ser fiel não se deve casar. O PSD, porque mais parece um menino de escola primária preocupado com os deveres de casa marcados pela mestra, a Troika. Quem tem o poder e não o exerce na totalidade não merece o poder. O PC, porque não deixa de ir buscar ao passado o futuro do país, vive atarraxado a ideologias sem vencimento numa sociedade maioritariamente social-democrata. Há quem não compreenda a sociedade em que vive. O BE é aquele menino birrento que pede aos pais tudo aquilo que estes não lhe podem dar. Há quem se não veja livre das utopias! Os Verdes não passam de lapas agarradas ao PC. Há quem goste de ser pendura. E o povo, aquele que tudo paga, tudo sofre e nada recebe em troca, olha para todos eles e conclui, perguntando: em quem devemos confiar o nosso destino?
Na verdade, não é fácil encontrar a agulha no meio deste palheiro. Mas temos que ter quem nos governe. E nesta inevitabilidade temos que optar, ou pelos partidos que já nos governaram ou por uma esquerda verdadeira, PC e BE. São bons para ouvir berrar, mas não são bons para seguir. A Assembleia da República perde-se na troca de palavras. Bom parlamentar não é o que produz mais e melhores leis, antes aquele que dá mais e melhores réplicas, arrancando palmas às claques partidárias. Quem muito palra pouco voa. O presidente da República faz o papel de contrarregra neste palco de triste espetáculo: marca os tempos de entrada dos atores políticos, mas não interfere na representação. Então, que “saia de cena quem não é de cena”. O capital está a sobrepor-se ao poder político. A nossa democracia partidária precisa de um reequilíbrio a níveis de uma nova ordem social, sob perigo de vermos a democracia deixar de ser real e passar a ser uma mera democracia formal.




Notícias relacionadas


Scroll Up