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O problema do Cristianismo ocidental

É muito difícil imaginar um atentado contra a fé cristã mais blasfemo e provocador do que o que nos foi mostrado no Festival de Veneza a 31 de agosto, com a projecção do filme Paradise Faith (A fé do Paraíso), de Ulrich Saidl. O filme atinge o ponto culminante numa cena em que a heroína, a actriz Maria Hoffstatter, faz um uso indecente do crucifixo. Mais ainda quando esse filme blasfemo recebe um prémio especial do júri.

José Carvalho
30 Set 2012

Assim, e antes de avançar, convém lembrar que, para um cristão, não há símbolo mais sagrado que o crucifixo, que representa Jesus Cristo, Deus feito homem, morto na cruz para livrar os homens dos seus pecados. Toda a fé cristã se resume na pregação do Cristo crucificado.
O escândalo de Veneza não é um caso isolado. Este acto inscreve–se num quadro de cristianofobia cada vez mais inquietante.
A Santa Sé fez uma intervenção a 12 de Setembro com uma declaração clara: «O profundo respeito pelas crenças, textos, grandes personagens e símbolos das diferentes religiões é condição essencial para a coexistência pacífica entre os povos». Coube ao Padre Federico Lombardi, porta-voz do Gabinete de Imprensa do Vaticano, proferir estas palavras. Todavia, infelizmente, este apelo – e para os mais distraídos –, não diz respeito ao caso da blasfémia de Veneza, mas sim a um outro filme, produzido na América, “A inocência dos muçulmanos”, que se considerou estar na origem das violentas manifestações que tiveram lugar na Líbia e noutros países árabes. «As gravíssimas consequências dos insultos e provocações injustificados contra a sensibilidade dos crentes muçulmanos – escrevia numa nota o Padre Lombardi – são, nos últimos dias, e uma vez mais, coisa bem evidente, devido às reacções que suscitam, por vezes trazendo até resultados dramáticos, que, por sua vez, vêm agravar a tensão e o ódio, desencadeando uma violência absolutamente inaceitável». O que se passou na Líbia não seria, pois, o resultado de um plano delineado desde há meses pela Al-Qaïda contra o Ocidente, mas sim a consequência inevitável dos «insultos e provocações injustificadas contra a sensibilidade dos crentes muçulmanos». Mas porque será que os insultos e provocações injustificadas contra a sensibilidade dos crentes católicos, como os do Festival de Veneza, também não são considerados «injustificáveis»? Será apenas porque não levam a consequências, nem graves, nem modestas que sejam?
Algumas pessoas vieram recordar que o que se passou na cidade de Benghazi não é a consequência do filme anti-Maomé, mas antes da política franco-americana que cedeu ao Médio Oriente e ao Islão, a qual, sob o pretexto da justiça reparadora, teve como momento crucial o apoio prestado pela NATO aos fundamentalistas de Benghazi contra Kadhafi. E se, contra o filme anti-islâmico, o mundo inteiro protestou, ninguém veio protestar contra o filme anticatólico, que foi projectado publicamente e se destina ao circuito do cinema de grande distribuição mundial.
Pelo que temos visto, a este filme ninguém se opõe. É este o verdadeiro problema dos dias de hoje. Não temos apenas a perseguição aos cristãos que acontece em terras islâmicas, temos também a cristianofobia no Ocidente. Mas, acima de tudo, temos ainda a fraqueza e a cumplicidade do Ocidente em face desta cristianofobia. E, infelizmente, também faz parte deste sistema de conivência, o silêncio vergonhoso e cobarde dos meios eclesiásticos.
Vale a pena pensar nisto!




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