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Imprensa e banda desenhada

Enquanto muitos portugueses estiveram no Terreiro do Paço a manifestar-se contra a austeridade, um grupo bem mais reduzido, que lá também, talvez, gostaria de ter estado, encontrou-se num outro sítio de Lisboa, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, a participar nas Conferências de banda desenhada em Portugal. Talvez o tema não tenha sido lá tratado, mas a imprensa (e outros media) e a banda desenhada (BD) relacionam-se bastante e de diferentes modos.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
30 Set 2012

O jornal pode ser a ignição de enredo. É isso que sucede, por exemplo, em diversas aventuras de Tintin. Uma notícia e eis que a acção começa, como em O segredo do Licorne. “Os jornais não falam de outra coisa”, diz o capitão Haddock no início de Tintin no Tibete, mostrando, logo a seguir, a Tintin uma notícia, dizendo-lhe: “Acabo de ler… Aqui está… Veja”. Colocar uma notícia de jornal ao serviço da narrativa, assim introduzindo informação relevante para o curso da história, é um procedimento assaz comum.

Há personagens de BD que têm a profissão de jornalistas. É o caso, por exemplo, dos muito famosos Clark Kent, que, quando não é o Super-Homem, trabalha no Daily Planet, Guy Lefranc, Ric Hochet ou Tintin. Nas bandas desenhadas, nem todos os jornalistas se assemelham. Eles podem ser estagiários, correspondentes de guerra e jornalistas de investigação. Uns trabalham em jornais; outros, em canais televisivos.

“O jornal é a matéria-prima para o meu trabalho”, afirmou Enki Bilal, um dos mais fascinantes autores de BD, numa entrevista concedida em 2003 ao Libération. O jornal, disse ele, é “uma mina: a actualidade, o mundo, as viagens, tudo vai alimentar as minhas bandas desenhadas”. “Eu procuro o que me pode provocar electrochoques”. Por isso, tudo é lido: “os anúncios, as breves, as notícias, os faits-divers, as fotografias”. A actualidade é um detonador do imaginário. É assim que eu uso os jornais”. Enki Bilal utiliza a imprensa nas suas histórias, pois, desse modo, pode “contar histórias mais complexas dando directamente as informações aos leitores”. Enki Bilal tem, aliás, a impressão de ser “um jornalista prospectivo”, disse ele numa outra entrevista, concedida ao El País. “Tenho a sensação de desenhar o diário do futuro”, acrescentou.

O autor de BD pode também ser, ele próprio, um repórter. Numa entrevista [disponível em www.mondomix.com/news/joe-sacco-profession-bd-reporter], afirmou Joe Sacco: “Com o desenho, há a possibilidade de captar o momento exacto, contrariamente à fotografia, a menos que se tenha sorte. Isto faz-me pensar na foto da guerra do Vietname na qual se pode ver um soldado vietcongue no momento em que vai ser morto. Esta imagem está ancorada nas nossas memórias porque ela foi feita exactamente no momento certo. Com o desenho, pode-se ‘recriar’ este momento preciso, e mesmo exagerá-lo, o que lhe confere um certo poder”. Os BD-repórteres, como Joe Sacco (que estudou jornalismo na universidade) ou como Marjane Satrapi e Guy Delisle, que o entrevistado refere, falam da actualidade internacional e da História e, como notava o La Croix na quinta-feira, têm um número de leitores cada vez mais elevado.

Uma BD pode ser aproveitada para criticar procedimentos dos media. Um exemplo eloquente encontra-se numa história de Miguelanxo Prado [Quotidiano delirante], em que se apresenta um acidente entre alguns ciclistas e um praticante de asa delta, canibalizado, digamos assim, pelos jornalistas, que, para darem maior dramatismo ao choque, e assim conseguirem atrair e fixar mais facilmente a atenção dos telespectadores, derramam sangue e vísceras no local do desastre.

Além dos distintos modos como os jornais, jornalistas e o jornalismo se reflectem na banda desenhada, há ainda extraordinários modos de a banda desenhada surgir na imprensa. Uma referência especial deve ser feita ao diário francês Libération que, todos os anos, por ocasião do Festival Internacional de BD de Angoulême, apresenta uma edição exclusivamente ilustrada por autores de banda desenhada.




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