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Os erros de Passos Coelho

Portugal está metido num grande sarilho financeiro, económico e social. E não se vislumbra qualquer sinal ténue de recuperação económica, nem de criação de emprego. O tempo, pelo contrário, é de recessão, de despedimentos e de insolvências. O tempo é de vivermos à custa do dinheiro que Troika entrega ao fim de cada avaliação positiva.

Armindo Oliveira
29 Set 2012

O tempo é de sobrevivência das nossas empresas, de emigração dos nossos jovens e de esperar pacientemente ou ruidosamente que um dia a situação melhore. Fomos longe de mais no endividamento e no desmantelamento das estruturas produtivas. Os governos foram incompetentes na resolução dos problemas que iam surgindo no país e muito imprudentes na forma como geriram os magros recursos financeiros produzidos.
Para adensar ainda mais o cenário negro da situação nacional, a manifestação do dia 15 de setembro abriu brechas na estabilidade política e na relação entre os parceiros da coligação. É imperioso que o clima de aproximação e de solidariedade institucional regresse ao governo para se evitar o caos social que uma impensável crise política provocaria. Ninguém investe num país em convulsão, descredibilizado e onde a corrupção passeia livremente nos corredores e nos gabinetes dos homens de colarinho branco. A Troika exige o cumprimento do acordo estabelecido no Memorandum de Entendimento e os portugueses querem viver com dignidade e tranquilidade. É muito difícil conciliar estas duas posições. Contudo, é preciso arrepiar caminho e tomar medidas corajosas e cirúrgicas para se evitar uma maior fratura social, mais pobreza e uma desmoralização generalizada.
Portugal tem um governo com maioria absoluta que é uma mais–valia e um garante de estabilidade política, fundamental num clima de crise profunda. O governo de Passos Coelho, apesar do quadro de grande austeridade em execução, estava a seguir uma trajetória de controlo da situação que ia ao encontro dos compromissos assumidos e assinados. É sabido que este governo herdou um país em bancarrota e que tinha aos seus ombros uma tarefa gigantesca de suster o plano inclinado da degradação da vida dos portugueses e começar a pagar os erros gravíssimos cometidos pelo governo anterior. Com tantos problemas para serem resolvidos, Passos Coelho, talvez mal aconselhado, não teve as decisões certas nos momentos certos.
Aponto-lhe três erros que poderiam ter evitado o sarilho da manifestação. Um erro de liderança por não ter cumprido o prometido nas eleições de Junho que se prende, justamente, com o corte radical das gorduras do Estado. Era uma medida que, além da enorme poupança que provocaria, visava a moralização do sistema e de pôr os “boys” no seu lugar. Antes de impor medidas severas aos trabalhadores, tinha que atacar as mordomias da classe política. Diminuir o número de deputados para 150; baixar drasticamente os salários dos gestores públicos; extinguir empresas públicas, fundações, institutos públicos e outros organismos parasitários que orbitam na esfera do OE; exigir responsabilidades de gestão às empresas municipais e numa segunda fase acabar com aquelas que não têm sentido e são um estorvo à decência política; colocar em patamares aceitáveis as despesas de funcionamento do aparelho do Estado; renegociar e taxar as celebérrimas PPP. O segundo erro é de natureza político. Logo que surgiram rumores acerca da licenciatura de Miguel Relvas, Passos Coelho teria que assumir a sua exoneração para não deixar abrir fendas no governo. Não o fez e está a pagar caro esta má decisão. O ministro Relvas é uma carta fora do baralho e sem qualquer credibilidade. Tudo o que o “licenciado” diz e o que possa dizer não é para o levar a sério. Por isso, cada vez é tarde demais, manter esta figura no governo. O terceiro erro é de ordem estratégica. É preciso um ministro credível e conhecedor da matéria política nos Assuntos Parlamentares para fazer as comunicações das decisões difíceis ao povo de forma atempada e lógica Se este trabalho tivesse sido feito com eficiência e racionalidade, o grande “espetáculo” do dia 15 de setembro teria sido adiado “sine die”. Com Relvas fora de combate por incompatibilidade, só restava ao governo ter agido com a nomeação rápida de Marques Mendes, por exemplo.
Vai ser muito complicado Passos Coelho manter o seu governo coeso em funções durante muito tempo. A esquerda já arranjou o bode expiatório para todas as desgraças que aconteceram e vão acontecer. O PS já lavou as mãos da péssima governação que teve com Sócrates. O CDS, parceiro de coligação, está a fazer um jogo dúbio e habilidoso, no mínimo. E o povo está anestesiado com tanta austeridade. Por isso, consenso nacional não é possível, mesmo nesta conjuntura de emergência e de grande debilidade. Para a classe política, o país e a resolução dos seus problemas não interessam. O que interessa é a luta pelo poder.




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