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Madrid foi o meu Damasco

Saulo, grande defensor da Lei de Moisés, considerava os cristãos como o maior perigo para o judaísmo. Depois da morte de Estêvão, que Saulo aplaudiu, partiu para Damasco com o poder de levar presos para Jerusalém a quem encontrasse, homens e mulheres, seguidores do Caminho.

Maria Fernanda Barroca
29 Set 2012

Estando já perto da cidade, pelo meio-dia, de repente envolveu-o o resplendor de uma luz do céu. E caindo por terra ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Respondeu: Quem és tu, Senhor? E Ele: Eu sou Jesus a quem tu persegues.(Actos dos Apóstolos 9, 3-5)

A partir deste acontecimento, Saulo, a quem Jesus mudou o nome para Paulo, começou a ser aquele grande apóstolo que todos nós conhecemos.
Este preâmbulo é uma tentativa de justificar o título destas linhas, com as suas semelhanças e diferenças. «Madrid foi o meu Damasco», era uma frase muitas vezes repetidas por S. Josemaria Escrivá, a propósito do que lhe aconteceu a 2 de Outubro de 1928.
O Padre Josemaria, educado numa família cristã, desde muito cedo, por volta dos seus 15-16 anos começou a sentir uma inquietação interior. Sentia que Deus queria algo dele, mas não sabia o que era. A sua arma de pesquisa era a oração cada vez mais intensa: Senhor que eu veja!
Pensava estudar Arquitetura, mas acabou por enveredar por Direito, e como com Deus não há “acasos”, tal mudança veio a ser-lhe muito útil no futuro.
Numa atitude de disponibilidade, resolveu enveredar pelo sacerdócio. Falando com o seu pai, homem íntegro e um verdadeiro cristão, este não se opôs, se bem que não fossem os planos que tinha para o filho. E fez o que um pai deve fazer: levou o filho a um amigo – Dom Antolín Oñate, Abade da Colegiada de Santa María la Redonda, para dar o seu parecer sobre a decisão do filho.
Uma vez concretizado o propósito, Josemaria entra no Seminário e, feitos os estudos necessários, é ordenado a 28 de março de 1925 e mandado paroquiar uma pequena aldeia, completamente descristianizada – Perdgueira.
O Padre Josemaria, até meados de maio, guardará os clássicos de literatura ou os compêndios de Teologia, para se dedicar totalmente aos seus paroquianos: celebra a Santa Missa diariamente e o povo começa a aparecer; mete-se no confessionário, onde terá de passar longas horas para que todos cumpram o preceito pascal; dirige a recitação diária do terço; atende os moribundos, não só com o seu carinho humano, mas, sobretudo, com os sacramentos para uma boa morte; batiza as crianças.
Passado esse período, regressa a Saragoça, até que pede licença ao bispo da diocese para ir para Madrid, continuar os seus estudos.
E foi aí que se deu o «seu Damasco», não de conversão, pois já era um «santo», no sentido paulino antes referido, mas de luz para ver o que Deus queria dele.
Mas o Senhor que eu veja! continua incessantemente, como o bater do coração. E em Madrid exerce o seu ministério sacerdotal, sempre com os mais pobres e com crianças. Resolve, então fazer um retiro espiritual no convento dos Padres Vicentinos, nos primeiros dias do mês de outubro.
No dia 2 de outubro desse ano de 1928, enquanto se ouvia ao longe o toque dos sinos da igreja de Nossa Senhora dos Anjos, o Padre Josemaria, ao arquivar umas fichas com pensamentos espirituais, «viu» finalmente o que Deus queria dele. Queria que fundasse aquilo que mais tarde veio a ser, e continua sendo, o Opus Dei.
De facto, ao Padre Josemaria foi-lhe dado «ver» por Deus uma verdade muito antiga, mas esquecida na prática: todos somos chamados à santidade e ao apostolado: homens, mulheres, jovens e menos jovens, trabalhadores manuais e intelectuais, ricos e pobres, etc. Todos, porque o Padre Escrivá sempre afirmou que só há uma raça: a raça dos “Filhos de Deus”.
Mas algo de novo está implícito na mensagem: a santificação de cada um deve fazer-se santificando o trabalho, santificando-se no trabalho e santificando os outros com o trabalho.
O trabalho não é um castigo de Deus, pela desobediência dos nossos primeiros pais, mas uma honra, uma dignidade que nos é dada por participar na obra da criação. Não que a criação ficasse incompleta, mas Deus disse aos nossos primeiros pais: crescei, multiplicai-vos e tratai do jardim onde ides viver.
É pois, no próximo dia 2 de outubro que vamos comemorar o 84.º aniversário da fundação do Opus Dei, confiada por Deus ao Padre Josemaria Escrivá. João Paulo II beatificou-o a 17 de maio de 1992, ou seja, há 20 anos, e canonizou-o a 6 de outubro de 2002, de que se aproxima já o 10.º aniversário.
 




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