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Deus é o «hálito» do mundo

1 Dizer que, quando falamos de Deus, falamos, antes de mais, de nós não é dizer pouco; é dizer muito. É dizer que, em nós, existe uma ponte para além de nós. É dizer que nem nós cabemos em nós. É dizer que a nossa existência postula um fundo, uma origem e um horizonte.

João António Pinheiro Teixeira
29 Set 2012

2. E é dizer que esse «além de nós» vai atravessando a nossa história, a nossa linguagem, o nosso esforço de autocompreensão e a nossa permanente insatisfação com o que a nossa linguagem oferece e a nossa compreensão alcança.
Em relação a Deus, estaremos sempre em estado de procura, em estado de abertura, nunca em estado de posse.
3. Já antes de Sócrates, os filósofos buscavam um fundamento para quanto existe, ou seja, o princípio («archê») em que as coisas são o que são. Para eles, era o todo que alicerçava cada uma das coisas, cada um dos seres vivos.
Anaxímenes achava que essa totalidade primordial e unificadora era o ar («anr»). Não o ar que respiramos, mas aquela espécie de vapor que escorre da nossa respiração. Trata-se do hálito.
É a este hálito que os gregos dão o nome de «theós». Esta palavra, que se traduz por «Deus», indica «aquilo que se basta a si mesmo».
4. Na mitologia, «theós» foi um termo aplicado a Júpiter. Daí que a característica essencial de «theós» seja a imortalidade. O universo vive graças a esta respiração cósmica imortal.
Não admira, pois, que depressa «theós» apareça como atributo principal dos deuses, uma vez que estes são «aqueles que se bastam a si mesmos» e que surgem como «imortais».
5. Xavier Zubiri entendia que o ser humano era «uma essência aberta». Percebe-se, por isso, que ele seja o lugar privilegiado do aparecimento de Deus.
Esta dimensão teofânica do homem dá-lhe a sua verdadeira identidade. É bem verdade, por isso, que, acerca de Deus, «o mais difícil não é descobri-Lo; é encobri-Lo».
Para o homem, tudo serve para falar de Deus, até a Sua ausência, a Sua suposta ausência. Porque Deus, quanto mais Se esconde, mais Se revela.
6. Deus não surge como uma entidade sobreposta à realidade. Pelo contrário, Deus é a realidade original, que faz com que toda a rea-lidade seja real.
Para Zubiri, Deus não é transcendente ao mundo. É transcendente no mundo. É no mundo que encontramos este «hálito» divino, esta respiração vivificante.
7. Neste sentido, salta à vista que não é preciso sair do homem para encontrar Deus. O Homem é espelho de Deus.
O decisivo, entre Deus e o homem, é a mútua presença e a recíproca implicação. Segundo Zubiri, «o homem não necessita de chegar a Deus» porque Deus já «está presente no próprio ser do homem».
8. «A realidade divina, embora, por um lado, seja a mais distante das realidades, é também, por outro lado, a mais próxima de todas elas».
É este paradoxo que nos estimula a avançar no problema intelectual de Deus, simultaneamente «o problema mais extemporâneo e contemporâneo de todos. Porque é uma questão que afecta a própria raiz da existência humana».
9. Mesmo quando é uma presença negada, Deus não deixa de ser uma questão colocada. Ela coexiste com a existência humana. Ela é conatural ao homem.
É possível ter as mais diversas posições acerca de Deus. Mas é praticamente impossível não ter nenhuma posição sobre Ele.
Afinal, haverá questão mais humana do que Deus?




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