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Se um dia a vida parasse

Fujo do habitual título a partir de um livro. Já em tempos, e por similar razão, recorri ao nome de um Filme (O Homem que vinha de longe). Socorro-me hoje de um poema. Não do Título que seria Romagem à Lapa, mas do seu verso primeiro.

Gonçalo Reis Torgal
28 Set 2012

A razão multiplica-se no desejo de que “a VIDA PARASSE e a gente voltasse ao tempo que havia”, como magnificamente escreveu Leonel Neves na Balada que Luís Góis consagrou e o Alma de Coimbra vem eternizando, numa homenagem a ambos: autor da Letra e Cantor de música sua. Isto porque hoje morreu Luís Góis. Conheci o Luís desde os tempos de Liceu, pois juntos andámos no D. João III que o ódio, a ignorância e a verrina transformaram em José Falcão. Ódio ignorância e verrina que não jogavam com o seu ser e estar de ver, “só irmãos, em redor”. Morava ali na Cumeada, mesmo em frente da casa onde vivia a que havia de ser a minha Querida e Saudosa Mulher, que lhe ouvia, contava-me, o esforço denodado que punha num como “cantar do andarilho”, que um outro comum Amigo brilhantemente engendraria anos mais tarde. Sentia-se herdeiro da Voz de seu Tio, vulto grande dos cantares de Coimbra: clássico a juntar a Bettencourt, Menano, Paradela de Oliveira – Armando Goês. Fizemos juntos a viagem de Fim de Curso Liceal a Viana do Castelo. Emprestei-lhe então uma Viola que meu Padrinho me dera, obra de um dos maiores fazedores de Violas e Guitarras de Coimbra. Durou a viola a viagem. Uma mala caída esborrachou-a. Não teve mais concerto. Com ela cantou ainda o Luís na linda cidade Minhota. Cantou e encantou. No enlevo dos seus Fados nasceram uns namoricos. Fizemos juntos a Universidade, eu um pouco mais atrás, que à Vida dera outro rumo antes de ingressar nos Estudos Gerais. Fechámo-los juntos no mesmo ano (1958) com o mesmo espírito académico e nas saudades de Coimbra, num como reviver a letra de um Fado de Armando Goês:

Foram-se as fitas queimadas
E o fumo subiu no ar;
 Ao ver o fumo das fitas
Senti a alma a chorar.

Com “a alma a chorar” recebi a notícia, raiava a manhã. Lembrou-se-me então Bilac, como de outro Amigo, se me lembrara, em igual momento de dor. Exclamei de mim comigo. Como “Morrer assim, num dia assim, de sol assim”, Luís! Tu que nos disseste “grita bem alto que queres viver” deixaste-nos com os “dez réis de esp’rança e de amor”. É certo que, tu o cantaste, “é preciso acreditar” que enquanto penamos naquele teu “Tu a quem a vida pouco deu, e deste o nada que foi teu em gestos desmedidos.” que prossegues no “Tu, que andas em busca da verdade e só encontras falsidade em cada sentimento”. Tu, Luís, HOMEM BOM, estás “num mundo maior e melhor”: o Mundo que imaginaste quando te propunhas “da[r] o teu braço aos que querem sonhar”, num vão desejo de ser realidade o “Grita bem alto que o céu ‘stá aqui”.

Descansa em PAZ, Luís! A nós, “que nesta vida [nos] perde[mos] e nunca a mitos [nos] vende[mos] – dura solidão – faz[endo] dessa solidão [um] chão sagrado”, mais não resta que sermos “homem só, [teu] irmão!”
Crendo na eternidade, em Tua Memória e vénia pelo seu abuso, deixo teus versos:

Tu, a quem a vida pouco deu,
que des te o nada que foi teu em gestos desmedidos…
Tu, a quem ninguém estendeu a mão
e mendigas o pão dos teus sentidos, homem só, meu irmão!

Tu, que andas em busca da verdade
e só encontras falsidade em cada sentimento,
inventa, inventa amigo uma canção
que dure para além deste momento, homem só,
meu irmão!

Tu, que nesta vida te perdeste
e nunca a mitos te vendeste – dura solidão –
faz dessa solidão teu chão sagrado,
agarra bem teu leme ou teu arado, homem só,
meu irmão!

Praga, 18 de Setembro de 2012




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