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A recuperação dos verdadeiros valores humanos

Na era atual, perdeu-se a arte de construir o homem. Continua aplicável a peripécia de Diógenes quando andava pelas ruas da cidade, apinhada de pessoas, em pleno meio-dia, com uma lanterna, à procura de um “homem” e não o encontrou. Quem é que nos garante e assevera, com segurança que, no meio das multidões de homens que, num corrupio constante, correm nas praças de um lado para o outro, se encontre meia dúzia de autênticos homens?

Artur Gonçalves Fernandes
27 Set 2012

E se transferirmos esta reflexão para a casta dos governantes, quantos estarão incluídos nessa minoria de privilegiados? Muito poucos. Por que será que, na maioria dos casos, só os incompetentes, os pseudo-ousados, os amigos do poder “custe o que custar”, os delapidadores do bem comum e exploradores das poupanças dos pobres, se apresentam sofregamente como candidatos aos cargos públicos? É que a sua rede é tão forte e abrangente que, se algum honesto se atreve a chegar a esses lugares, pouco tempo lá permanecerá. Os correligionários dos primeiros encarregar-se-ão de o afastar, porque se torna num empecilho para os seus objetivos. A História encarrega-se de nos confirmar esta teoria. Os poderosos continuam mais poderosos, os ricos mais enriquecidos enquanto que os trabalhadores são cada vez mais espremidos no seu já mirrado e diminuto património.
Um homem só é forte conforme as suas aptidões forem desenvolvidas harmoniosamente e preparadas para resistir à tentação da procura das coisas indignas e, pelo contrário, desejem e persigam as coisas dignas. O mundo é como uma escola onde todos somos alunos, voluntária ou involuntariamente, das primeiras letras da verdadeira vida. As autênticas normas apenas se encontram nas convicções éticas, morais, cívicas e religiosas, quando retamente vividas. Recorde-se que é no seio das próprias igrejas que se encontram os seus piores inimigos, ou seja, aqueles que pervertem a sua essência humana e salvífica, começando a defender práticas intrinsecamente desajustadas e até demoníacas, como aconteceu com os grandes cismas, os movimentos heréticos e puritanismos mais papistas que o Papa.
Infelizmente, hoje ainda se veem destas atitudes que urge eliminar, com paciência, persistência e muita oração. Ainda há falsos profetas ou certos responsáveis com uma conduta não muito edificante, bem como alguns cooperadores e fiéis cuja atitude deixa um pouco a desejar, ora na sua compostura, ora na falta de coerência entre a função desempenhada e a vida privada e social, para não falar num exibicionismo que mata a humildade que os deve nortear. Os critérios de seleção, por vezes, não são os mais ajustados para o desempenho das funções a que se apresentam. Alguns até acorrem a vários templos religiosos para aí se “mostrarem”, se lhes surgir a oportunidade. A experiência espiritual correta permite-nos “ver Deus”, liberta-nos das garras da ganância, da vaidade e dos vícios, dá-nos a perspetiva real do mundo e da espécie humana e destrói a barreira do isolamento construída pelo egoísmo, pelo preconceito e pela classificação artificial que se torna na pior praga do mundo.
Há qualidades inatas suficientes para merecer mais do que um pensamento fugidio quando temos olhos para ver mais vasta e profundamente. Não é só no mundo meramente exterior que se deve procurar a verdade espiritual, mas sobretudo no próprio homem, por meio de uma observação mais atenta e serena. As grandes carências do homem continuam a ser e serão sempre três: conhecer Deus, conhecer-se a si próprio e conhecer os outros. E só nos conheceremos realmente a nós próprios e aos outros, se conhecermos a Deus.
A vida é muito mais do que a fama, a riqueza, o poder, a prepotência e o hedonismo materialista que, sendo efémeros, passam com muita rapidez. Ela é muito mais que comer, beber, respirar, mudar constantemente de vestuário, passear, banquetear-se e divertir-se. O homem sensato, correto, vertical, solidário, desprendido das honrarias mundanas e coerente com a sua natureza, tem uma visão de vida mais elevada, mais séria e mais humana.




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