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Não vale a pena complicar

É isso mesmo. Não vale a pena complicar. O Governo tem que fazer o ajustamento orçamental e criar condições para que o défice e a dívida baixem e se estabilizem em valores aceitáveis. Temos todos que perceber isto. Doutra forma, andamos a enganar-nos ou a deixar-nos enganar. Há sempre quem se aproveite disso.

Luís Martins
25 Set 2012

A não ser que queiramos ficar na história como um povo de caloteiros. Essa é uma possibilidade, mas as consequências certamente que não compensarão, para além do odioso que é ficarmos assim qualificados e deixarmos em testamento aos mais novos e aos que hão-de vir. Noutra perspetiva, é ficarmos desqualificados, o que também se não aconselha. Por isso, é bom que acabemos com o discurso que tem sido abundante, reiterada e intensamente repetido contra quem nos está a ajudar. É bom que tenhamos um pouco de tento na língua – e isto não tem nada a ver com liberdade de expressão, nem um bocadinho – para não nos arrependermos mais tarde. A verdade acima de tudo.

Os credores vieram cá porque os chamámos e lhes dissemos que estávamos falidos. Mais: na altura, pedimos-lhes que não viessem de mãos e de malas vazias. Que viessem rápido e trouxessem ajuda. E trouxeram uma enormidade de dinheiro. E vão trazer mais, porque continuamos a precisar. Ao todo, um total equivalente a 5.200 euromilhões. Basta dividir o valor do empréstimo pedido e aceite pelo prémio base do jogo que faz excêntricos, assim diz a publicidade. Em troca, os credores exigiram-nos comportamento exemplar nas contas, de agora para o futuro, que no passado já não podemos mexer, e condições para que a economia cresça e com resultados bastantes para que possamos reembolsá-los de acordo com os prazos negociados. Simples. Não vale a pena complicar. O resto, são “peanuts” ou, dito em português, é coisa pouca.

Tudo certo. Há que cumprir. Não temos volta a dar. Desde logo, porque não temos outros credores que nos emprestem tão avultada soma e com juros razoáveis, embora talvez a Comunidade Europeia a que pertencemos pudesse fazer um pouco melhor. Mas o Governo não pode, por não estar mandatado a tanto, responder de qualquer jeito às exigências do negócio. Há-de perscrutar os financiadores sobre a possibilidade de se conseguirem os mesmos resultados com outras medidas de poupança e austeridade. Há-de procurar uma forma de não afrontar o povo, de o não hostilizar, porque o sacrifício tem que ser partilhado por todos, mas com justiça e equidade. Estes termos são importantes e nem sempre têm sido respeitados. Há soluções mais fáceis do que outras e, normalmente, preferem-se as primeiras, mas nem sempre acertadamente. Também aqui não é preciso complicar. Ainda menos quando se é leal aos compromissos assumidos. O prometido a quem é devido. Cada um deve contribuir de acordo com as suas possibilidades.
É claro que isto não é fácil. Como não o fazemos de livre vontade, é preciso que quem nos governa o faça por nós, nos estritos termos do significado da justiça e equidade, chamando a contribuir os que podem e segundo as reais posses de cada um. O Governo tem formas de o conseguir. É claro que pode não acertar muito bem, mas tem que fazer o esforço, mesmo que se tenha de incomodar por mexer em pecúlios patrimoniais próprios e de amigos. Mas, primeiro, há que ir aos patrimónios próprios, começando por aquilo de que se não precisa ou é faustoso. Quem precisa não pode chocar os credores com luxos e mordomias próprios de quem não precisa de ajuda. Mas que o comportamento se mantenha mesmo para além do pagamento da dívida. Os amigos, nestas coisas de equidade, não podem ser favorecidos, doutra forma aquela não se faz. Já o foram antes, já têm mais do que precisam para uma vida linda e feliz neste mundo. Podem contribuir mais do que costumam fazer. Se assim for, talvez os remediados e pobres não o tenham que fazer para além das suas possibilidades.
Não vale a pena complicar para se governar. Basta utilizar esta norma secular de governar os povos com justiça e equidade. Nos tempos que são os nossos também se aplica e é bem vinda. Quando se complica, lá se vão as vantagens e virtualidades da sua prática. E fazem-se então manifestações a lembrar quem manda em democracia. Um governo que vê e sabe escutar com humildade, emenda a mão e corrige a trajetória. Terá a oportunidade de voltar a ser apreciado. O poder está no povo, sabemo-lo. Para melhor operacionalidade, o seu exercício é que é delegado, por um tempo e de acordo com um mandato preciso, o que foi sujeito a sufrágio. Um ministro é um servidor. Se governar sem complicar, isto é, se o fizer nos estritos termos do seu mandato, será tolerado e bem aceite pelo povo. De contrário, arrisca-se a uma reprimenda.




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