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Depois da agitação

A última semana foi marcada pela agitação causada pela comunicação de Pedro Passos Coelho ao país, anunciando a necessidade de mais austeridade e em que a mexida na TSU (taxa social única) assumiu a primazia das maiores contestações.

J. M. Gonçalves de Oliveira
25 Set 2012

As reações de várias personalidades, oriundas de distintos quadrantes ideológicos, deram o tom a um avolumar de protestos que vieram a culminar nas manifestações de rua, em diversas cidades do país, no pretérito dia 15. Estas exteriorizações de descontentamento foram, sem dúvida, a saída para muitos portugueses exprimirem os sinais de cansaço e de frustração que tantos ajustamentos vêm causando.
No meio da crise instalada, que abalou a própria maioria que suporta o governo, assistimos aos habituais aproveitamentos, traduzidos aqui e além por resquícios de violência, que tentaram manchar a grande urbanidade com que decorreu a maioria dos protestos. A isto não terá sido alheio o papel de algumas minorias que não pretendem mais do que espalhar o caos e de algumas individualidades que, por uma questão de pudor, deveriam manter maior recato.
Este alvoroço que viria a terminar com a reunião do Conselho de Estado da última sexta-feira, em que houve avanços e recuos e clarificações de diversa natureza, deve-nos deixar satisfeitos, já que qualquer outra saída poderia ter consequências catastróficas para o nosso futuro coletivo.
É evidente que, no plano teórico, há sempre soluções e que a democracia deve sempre gerar alternativas. Porém, Portugal vive uma situação de soberania vigiada, em que a dependência financeira nos deve impedir de qualquer veleidade. Por isso, não será demais rejubilar pelo desfecho deste tumulto e dele colher os melhores ensinamentos.
As dificuldades e a assunção crítica dos erros causticam, mas ajudam a melhorar o desempenho, a corrigir trajetos e a reforçar o engenho e a vontade. Não raras vezes, dão-nos a perceber melhor a realidade que nos cerca e a conhecer com maior perfeição os atores com que temos de conviver. Não devem envergonhar ninguém.
Esta ponderação não deixa de suscitar algumas perplexidades ao analisar a evolução da crise que deixou o país perturbado.
Portugal está numa situação de sitiado e esta condição não foi causada pelo atual governo. Há circunstâncias externas que terão contribuído para tal, mas todos sabemos quem nos conduziu a este atoleiro. É no mínimo estranho que alguns tentem esquecer os maiores responsáveis e o façam como o ontem faça parte de um longínquo passado.
Ao ouvir e ler algumas opiniões que nos dão conta da necessidade de inverter o caminho da austeridade e seguir outro rumo, gostaria mais que nos apresentassem propostas concretas. Retórica falaciosa pode ajudar a enganar os mais incautos, mas não serve os interesses do país.
A maioria do povo português tem dado provas, em diversos momentos, de uma grande maturidade cívica e de um enorme espírito de sacrifício. Que os presentes responsáveis pelo seu destino saibam gerir este património com a delicadeza que a melindrosa situação impõe e sejam capazes de ultrapassar mais este rol de tormentas. Se o fizerem com inteligência, equidade e se souberem potenciar o espírito solidário que é apanágio do povo português, cumprirão com grandeza a missão que lhes está destinada.
Depois de qualquer tempestade, há sempre tempo de bonança. Que a agitação há pouco vivida reforce os laços de coesão do governo, da maioria que o apoia e lhe reforce a vontade de vencer. Acredito que assim será.




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