Fotografia:
Passos inseguros da nossa democracia

Repentinamente, o nosso país entrou em convulsão social. Não é que não se pressentisse, mas agora o vulcão começou a fumegar. Os diversos intérpretes da nossa política estão a tornar-se algo de inesperado – ou talvez não! – na medida em que surgem sinais de incapacidade para resolver as questões mais mínimas. Há quem se perfile em ordem a derrubar o governo, enquanto este vai dando sinais de alguma desorientação.

A. Sílvio Couto
24 Set 2012

Os nossos credores esticaram os tentáculos e logo o país estrebuchou de medo e de ansiedade. Houve quem pretendesse dizer que o ‘tal’ milhão de manifestantes de 15 de setembro tem de ser escutado. No entanto, os outros nove milhões serão de esquecer ou menorizar só porque não se manifestaram na rua? De facto, o barulho traz confusão e esta nem sempre é boa conselheira da paz social de que tanto precisamos, por estes dias.
Sem pretendermos fazer uma análise aprofundada das manifestações de «15S», deixamos breves apontamentos, numa espécie de paralelo por contraste, a que haveremos de voltar mais tarde.

= Sinais em favor
As dificuldades económico-financeiras das pessoas, das famílias e das empresas são graves. O silêncio sepulcral em que esta(va)mos a viver tinha de ser sacudido. Quem cala nem sempre consente!
A diversidade de intervenientes, desde crianças até famílias inteiras, percorrendo um largo espetro de desempregados e de jovens à procura de emprego, num leque diversificado e atento ao (seu) futuro a curto e médio prazo, foi notória.
Muito para além dos números dos sem-rostos – tais foram já outros falhanços das convocações via redes sociais – houve quem tenha tido a ousadia de sair de casa, acreditando que todos temos uma palavra a dizer sobre o nosso futuro coletivo.
Num país pouco politizado para defender os interesses comuns, vimos pessoas que estão atentas ao futuro das gerações vindouras, trazendo-as também à liça da participação mais consciente.

= Leituras de apreensão
Mais do que o número de pessoas que veio para a rua sobressaiu o tom algo exaltado – mesmo por entre ‘elogios’ medíocres para o bom comportamento (dito) cívico dos manifestantes – e revivalista do tempo do prec, no distante verão de 75. Até algumas palavras de ordem soavam àquela época!
Vimos muita gente mais interessada nas suas regalias e objetivos do que pessoas preocupadas com o futuro do país. E podemos deitar a perder, com a multiplicação de iniciativas idênticas, a credibilidade conseguida junto dos nossos emprestadores internacionais.
De algum modo foi triste e talvez preocupante para novos protestos, vermos agressividade semeada por gente que se esconde por trás de caras encobertas e que, à sombra, gera barulho, provocação às autoridades e propensa à destruição. A Grécia pode repetir-se em Portugal! Seria desagradável e incontrolável.
Numa espécie de associação na desgraça, não havia necessidade de vermos certos aproveitamentos – sindicais, partidários, grupais e de lóbi – por entre os que se quiseram manifestar, pois nem sempre a desgraça alheia pode servir de cobertura aos protagonismos mais interesseiros.

= Que futuro?
Cremos que já basta de culparmos os outros – embora haja quem seja culpado e não o assuma! – para nos desculparmos pelos nossos insucessos pessoais e coletivos, familiares ou profissonais, pois na assunção da culpa poderemos encontrar o caminho a seguir.
Ainda não vimos, cristãmente falando, quem tente fundamentar nos valores dos Evangelho, clara e distintamente, a solução dos nossos problemas mais sérios. Vamos ouvindo frases e chavões de teor mais reivindicativo do que profético, pois denunciar não basta, se não nos comprometermos na solução proposta.
Temos de aprender a viver na simplicidade (evangelicamente diz-se ‘pobreza’) de vida escolhida e não no azedume contra a austeridade. Esta é-nos imposta, enquanto aquela pode fazer-nos viver com o essencial sem esbanjamento nem consumismo de faz de conta.
A nossa democracia está a percorrer passos inseguros – jogando com os apelidos do primeiro ministro e do líder da oposição. Deus queira que consigamos ultrapassar esta fase do nosso país com sensatez, trabalho e colaboração de todos. Afinal, todos somos necessários, úteis e responsáveis!




Notícias relacionadas


Scroll Up