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Finanças ideológicas?

A aplicação e distribuição dos dinheiros públicos, a arrecadação de dinheiros de contribuintes, a política social e educativa, têm, ou não têm, uma orientação ideológica, quer no todo, quer nas políticas setoriais? Poderemos de algum modo esperar que estas políticas sejam neutras, isentas de orientação ideológica e matriz de igualdade e fraternidade? Nada é neutro desde que o indivíduo esteja presente. Em todos os ramos da atividade humana, a neutralidade não passa de uma maravilhosa utopia, um desejo e um anseio etéreo, que a prática desmente e reduz sempre à parcialidade.

Paulo Fafe
24 Set 2012

Quanto a finanças, passa-se exatamente o mesmo. Ou se privilegia o Estado, fazendo dele o senhorio de tudo, como nos regimes comunistas ortodoxos, onde a atividade privada é um sacrilégio, ou se tira tudo ao Estado e se dá a propriedade de tudo aos particulares, onde a presença do Estado é uma heresia; mas há sempre o meio termo que como o clássico na moda, nunca perde atualidade; aqui as políticas financeiras vão no sentido de não deixar que os ricos sejam muito ricos para que os pobres sejam menos pobres, fazendo da fiscalidade a balança distribuidora.
Cada um dos leitores entenderá facilmente que estamos num quadro político em que existe uma esquerda, uma direita e uma social-democracia. E é neste xadrez político que estamos a viver. As recentes políticas financeiras do sr. ministro Vítor Gaspar enquadram-se numa ideologia de direita porque, quer no âmbito das finanças, quer nos aspetos sociais e educativos, tudo pressupõe que existe em seus propósitos a ideia de reenviar para o particular aquilo que pertence ao Estado-providência. Nada aponta, pois, para uma ideologia de esquerda, nem sequer existe uma inclinação, ainda que muito leve, para uma social-democracia.
A persistirem estas políticas, que a manifestação colossal de dia 15 de setembro fartamente reprovou, fica-nos o entendimento de que estamos perante um modelo financeiro que está a sobrepor-se à sociedade concreta. Sendo assim, dou razão a quem diz que estamos  a resvalar para um regime totalitário financeiro. O equilíbrio das contas públicas é uma obrigação e a questão que se põe é como fazê-lo. Já se viu pelos falhanços apresentados por este governo, melhor, por este ministro das finanças, que não é pelo corte dos rendimentos que se lá chega. O sr. ministro das finanças não é muito lesto, ou pelo menos não é tão lesto, a cortar nos gastos dos ricos do regime, como  é rapace para os menos favorecidos. Se isto não é ideologia financeira, então digam-nos o que é.
O sr. ministro Vítor Gaspar não tem apoio social que lhe permita ir em frente carregando sobre os pobres; os partidos que apoiam o governo também não lhe darão conforto para prosseguir com as suas políticas financeiras  sem se negarem humanisticamente a si mesmos. Vítor Gaspar Já não sairá do buraco que ele mesmo cavou. O governo ganharia, e muito, com a sua saída. Pelo menos ganhava tempo e modo de emendar a mão. Julgo que o sr. ministro Vítor Gaspar deve bater com a porta do seu ministério, antes que lhe batam com ela na cara.
O ministro das finanças que lhe suceder, está mandatado pelo povo da revolução cívica do dia 15 de setembro para cortar nas empresas públicas e camarárias, nos institutos e fundações, nas mordomias de ministros e diretores gerais, nos salários e mordomias dos ex-presidentes da república. É chegada a hora de cortar nos gordos para ver se os magros engordam alguma coisa. Talvez isto serene a revolta dos que já sem camisa vão passar a ser descamisados; talvez a paz social volte a ter o rosto admirável que tem tido.




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