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O fracasso da educação?

A pergunta encontrava-se, há dias, num título de uma página 25 do diário El País e era formulada por Adela Cortina. A professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência escrevia que, no dia-a-dia, há um tópico que se repete: é preciso trabalhar em conjunto, porque tiraremos mais proveito da cooperação do que da busca egoísta do benefício individual. Treta, constata ela.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
23 Set 2012

O dito e o feito, de facto, não coincidem. E Adela Cortina ilustra-o com a história de um transeunte a quem perguntam se ele se deixaria corromper. “Se for uma sondagem, a resposta é um rotundo não; se é uma proposta, podemos conversar”, responde o inquirido. Daqui nasce uma pergunta: como fazer com que o que se diz coincida com o que se faz?

A contradição entre o dizer e o fazer leva a professora a citar alguns neuroéticos, autores que trabalham sobre as bases cerebrais da moralidade, que referem que o grande problema da nossa época é “a falta de motivação moral”. “As pessoas não obedecem muito bem às leis legais, porque estas obrigam mediante coacção. E este ‘não muito bem’ não precisa de muitas explicações num período como o actual. Mas a debilidade e a força da moral vêm de que são as próprias pessoas que devem estar convencidas de que os seres humanos são dignos de uma vida boa, de que há valores que é necessário encarnar na vida quotidiana. Esse é o preço que há que pagar pela autonomia moral, e essa é também a sua grandeza”.

Mas como, segundo Adela Cortina, a motivação moral não parece estar nos seus melhores momentos, “os autores mencionados sugerem que se vá pensando num caminho que não se pode percorrer no curto prazo, nem talvez sequer no médio, mas a longo prazo sim: melhorar moralmente a espécie humana intervindo no cérebro”. Os neuroéticos, prossegue a professora, crêem que, se é verdade que a moralidade humana tem ao menos uma base biológica, então um tratamento neurológico ou genético permitiria fomentar as emoções que apoiam o nosso sentido da justiça e a nossa capacidade para o altruísmo. “De facto, substâncias como a oxitocina parecem aumentar a confiança nas pessoas, os inibidores selectivos da recaptação de serotonina, incrementar a cooperação e reduzir a agressão, e também o ritalín parece reduzir as agressões violentas”. Isto impõe a Adela Cortina mais uma interrogação: “Poderíamos com tudo isto organizar por fim o sonhado mundo feliz, em que todos os seres humanos alcançam as suas metas ajudando os outros a alcançar as suas?”

O projecto não é novo, nem na História, nem nas Ciências, recorda Adela Cortina, que refere que, nas obras Frankenstein, de Mary Shelley; A ilha do doutor Moreau, de H. G. Wells; O admirável mundo novo, de Aldous Huxley; A laranja mecânica, de Anthony Burgess (ou de Stanley Kubrick, se se preferir o filme), se encontra “uma minúscula mostra desse afã de melhorar moralmente os seres humanos intervindo já, sem confiar, para que esta melhoria ocorra, na educação que deveria vir de uma sociedade que fala muito, mas faz pouco”.

Adela Cortina considera que projectos como estes pertencem à ficção, mas as ficções podem converter-se em realidade, razão por que convém que os cidadãos as conheçam para sobre elas poderem formar uma opinião e debatê-la. Na discussão, há uma pergunta que seria, para a professora, essencial: “Não há outra saída para além das intervenções biológicas para conseguir uma humanidade convencida da importância dos valores da palavra e da obra? Ou sucede que não existirá chip moral, não há fármaco, nem implante capazes de substituir a paciente formação voluntária do carácter das pessoas, das instituições e dos povos? Neste caso, em 2012, declarado Ano das Neurociências, continuaria a ser verdade que só a liberdade é o caminho para a liberdade”. Mesmo que se possa não ser um optimista, a educação é preferível à farmacologia ou a manipulações neurológicas ou genéticas.




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