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A manifestação do “povo”, a austeridade do Governo e o disparate de alguns

Começo por uma declaração de interesses: não estive na manifestação do passado sábado, dia 15 de Setembro. O que pode ser considerado, por alguns que me estão a ler, um insulto. Porém, e na minha idade, julgo ter ainda algum juízo (ainda que pouco) para perceber que não faz sentido estar a manifestar-me e insultar aqueles que nos têm ajudado e emprestado os milhões de que necessitamos para sobreviver. Leia-se: o actual Governo e essa tão odiada «troika».

José Carvalho
23 Set 2012

Fui educado a respeitar todos aqueles que nos ajudam e não a insultar. Sei quem nos emprestou dinheiro e nos socorreu num momento de desespero. Num momento em que era notória a impossibilidade de o Estado continuar a cumprir os mais básicos compromissos: depesas correntes, pensões, ordenados da função pública, além da dívida pública acrescida de juros. Sei ainda, e muito bem, que o actual Governo (ou outro que lá estivesse) não conseguiria fazer diferente.
Confesso, também, que jamais iria a uma manifestação aproveitada por algumas forças políticas e por uma comunicação social que gostam e se aproveitam, de forma oportunista, para criticar a actual
situação económica, financeira, política, social e moral. Mas que se esquecem de apresentar as tão desejadas alternativas. Alternativas que todos gostariam de conhecer, mas não nos são dadas.
Do meu ponto de vista, e a todos estes, gostaria de recordar – a quem esqueceu –, o óbvio: a manifestação deveria ter sido para pedir responsabilidades a quem nos colocou nesta situação. Mais: a indignação que se viu estampada nos rostos de muitos que saíram à rua, deveria ter sido dirigida a quem nos empurrou para esta situação de emergência e de austeridade medonhas e não ao actual Governo. Um Governo que, bem vistas as coisas, não tem culpa da herança que recebeu. E, em última instância, a pessoa do sr. Primeiro-ministro, Passos Coelho, ainda menos responsabilidade tem. Isto, parece-
-me, é de elementar bom senso. Até porque pouco mais pode fazer além de obedecer às imposições da «troika». Seria bom que todos se lembrassem disto! Mas o povo português, infelizmente, parece ter uma curta memória política. E é pena!
Recuso-me, e aqui o escrevo com toda a frontalidade, a pedir a demissão de um Governo, como alguns o pretenderam fazer no dia 15 de Setembro, e muitos outros o têm feito nos dias seguintes, passando a legitimidade de umas eleições democráticas para o «poder da rua». A minha formação em História ensina-me que um poder legítimo e eleito nas urnas, não pode nem deve ser derrubado pelas ruas. A I República (1910-1926) mostrou–nos que esse expediente de exigir a queda dos governos na rua deu maus resultados no curto e médio prazo. Instabilidade constante numa primeira fase, e descrédito da classe política na segunda. Finalmente, levou o País a aceitar um regime que nos Governou perto de meio século e de má memória para muitos.
E quem pede a demissão do Governo na rua, pouco mais de um ano depois de ter tomado posse – uma maioria eleita democraticamente –, usa um argumento baseado na demagogia pura e dura. É a demagogia no seu melhor. A demagogia de um grupo de fulanos que acredita ter a capacidade de decidir o que pensam e querem todos os cidadãos que vão para a rua. Fazem lembrar alguém que no Verão Quente disse em plena praça pública: «não quero, de modo nenhum, perder nas urnas o que consegui ganhar na rua».
Seria bom recordar que a população na rua aplaude hoje quem quer destruir amanhã e vice-versa. E sabemos que os políticos e dirigentes nacionais, independentemente da sua cor política, passam, e rapidamente – mais ainda quando são forçados a tomar medidas impopulares –, de bestiais a bestas.
Porém, dito isto, e para finalizar, também tenho de escrever o óbvio: compreendo muito bem a indignação dos que participaram nas manifestações – e também dos que não participaram – porque a indignação é visível em toda a gente. Mas também tenho de deixar um alerta: sejamos todos responsáveis ao ponto de aprender com as lições do passado.
O grande problema de toda a contestação à austeridade e ao Governo, parece-me, é que ninguém explicou aos portugueses o que estava e o que iria acontecer: um País falido, sem dinheiro e dependente, actualmente, do dinheiro da «troika». Não sejamos ingénuos: isto não se resolve em pouco tempo. Estamos nas mãos dos credores e ainda nos esperam dias piores!
Para quem ainda não entendeu: a austeridade não é uma escolha ou uma invenção de alguns. Trata-se, tão somente, de uma realidade que nos está a ser imposta.
Finalmente, é necessário que todos percebam isto: criticar e manifestar-se é uma coisa legítima, estar ao lado dos que destruíram impunemente o País é outra, muito diferente. Seria bom que cada um decidisse de que lado quer estar. A História e as gerações futuras, tenham a certeza disso, irão julgar-nos pela escolha que fizermos.
Vale a pena pensar nisto!

N.B. – Parece que muitos ainda continuam a acenar com o slogan «Que se lixe a troika». Mas seria melhor termos algum cuidado, não vá a «troika mandar lixar os portugueses».




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