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«A partícula de Deus»

Poucas vezes os meios de comunicação se debruçaram de forma tão intensa na análise e difusão de uma notícia relacionada com uma descoberta feita no campo da física quântica, como com o anúncio em Melbourne (Austrália), durante a inauguração da Conferência Internacional de Física de Altas Energias, que provavelmente tinham descoberto o bosão de Higgs.

Maria Fernanda Barroca
22 Set 2012

Desde que nos séculos VI e V a. C. os filósofos pré-socráticos se interrogaram sobre a origem do universo e pela composição da matéria, a mente humana não deixou de tentar responder racionalmente a estas questões. O primeiro terço do século XX viu nascer um novo paradigma cosmológico, a teoria do Big Bang, que, graças às inúmeras revisões, continua a ser o modelo explicativo que responde a algumas questões.
Foi um dos seus autores o padre católico George Lemaître (1894-1966), que propôs o que ficou conhecido como teoria do Universo, posteriormente desenvolvida por George Gamow.
Para estudar a estrutura da matéria construíram-se os grandes aceleradores de partículas. Todas as partículas propostas pelo modelo foram descobertas ao longo das décadas seguintes; a última delas foi o desprezado Bosão de Higgs.
O físico inglês, Peter Higgs, há meio século que falava na “partícula de Deus” e a sua descoberta agora encheu-o de orgulho por ter razão. Actualmente com 83 anos, falou no Reino Unido pela primeira vez sobre esta descoberta que ele tinha intuído.
A descoberta, considerada por muitos, o avanço científico mais importante das últimas décadas, exigirá meio século de pesquisas e biliões de dólares em experiências.
A descoberta do Acelerador de Hádrons é a única com potência e intensidade necessárias para produzir níveis elevados de energia.
O Bosão de Higgs explica que outras partículas tenham massa e, por tanto, o universo formou corpos, mas isso não é “criar”. Talvez o Bosão de Higgs ajude a esclarecer grandes incógnitas ainda pendentes, como a matéria negra que é quase a quarta parte do universo.
Esta partícula, apresentada por Peter Higgs em 1964, é de capital importância, posto que é, segundo o modelo, a que confere massa às outras partículas no interior do campo de Higgs (um oceano de energia quântica que ocuparia todo o universo), possibilitando com isso a existência de corpos. Daí que em 1933 o Prémio Nobel Lederman lhe chamasse “a partícula de Deus”, no livro titulado assim (The God Particle).
Os Bosões de Higgs conferem massa a uma partícula em função da capacidade de interacção da partícula com o campo de Higgs.
Um fotão não interactua com o campo de Higgs, porque não tem massa. Um electrão sim interactua, porque adquire massa; também o quark top, e com uma intensidade 350.000 vezes maior, pelo que tem uma massa 350.000 vezes maior que o electrão. Assim, a massa de uma partícula seria na realidade a intensidade com que actua com o campo de Higgs.
O padre Gabriele Gionti, físico e teórico do Observatório Astronómico do Vaticano afirma que a anunciada descoberta do Bosão de Higgs prova a existência de uma “estrutura racional” na natureza e “se alguém tem fé e acredita num Deus que criou o universo, a sua fé é confirmada pela descoberta da simetria que existe na natureza”.
O presidente da Academia Pontifícia e vencedor do Prémio Nobel em 1978, Werner Arber, diz a este respeito: o Bosão de Higgs não revela “mais ou menos sobre a existência de Deus, mas do ponto de vista religioso, é preciso dizer que por trás de qualquer partícula que exista está a mão de Deus”.
Apesar da maioria das pessoas pensar que o Vaticano e a Organização Europeia para a Investigação Nuclear não se entendem, a realidade é que trabalham em conjunto há muitos anos.
O Observatório do Vaticano foi criado em 1981 pelo Papa Leão XIII para mostrar, precisamente, que a Igreja não está contra a Ciência. Este dado deve levar-nos a aprofundar mais e mais no conhecimento de algo tão aliciante.
E não tenhamos medo, nem fiquemos bloqueados quando nos dizem: um dia se descobrirá que Deus não existe, porque «o maior inimigo da fé, não é a Ciência, mas a Ignorância”.




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