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O país dos irresponsáveis

Neste cenário de crise quase bélica, em que todos disparam sem saber bem porquê nem para onde, convém que se pare… escute… e olhe. Se há coisa que eu aprecio nos tempos de correm é a razoabilidade. Dizer que este governo é o culpado de todos os males é bem mais do que nada razoável… é injusto e hipócrita. Sejamos autocríticos em relação à nossa própria história.

Ramiro Brito
21 Set 2012

Esta crise que hoje vivemos tem inúmeros rostos, muitos culpados e, acreditem, Passos Coelho e Vítor Gaspar não são, de longe, os maiores responsáveis.
Se olharmos para o período pós 25 de Abril, verificamos que essa esquerda eufórica e fundamentalista que se focou no aumento dos salários sem precedentes, na criação de direitos laborais sem perceber que este crescimento teria de ser acompanhado pelo aumento sustentado e firme da produtividade e sem entender que os empresários não são o inimigo, mas sim o motor de crescimento do país, nos encaminhou desde logo para esta situação económica assimétrica em que nos encontramos.
Como é óbvio, isto não se esgota na esquerda, porque tivemos dez anos de cavaquismo, o homem da direita ou da social democracia que beneficiou dos anos de ouro dos fundos europeus, dos subsídios, ou seja, daquilo que teríamos de ter utilizado de forma inteligente e racional para investir na nossa economia, para criar produtos fortes e competitivos que nos permitissem sobreviver numa Europa economicamente feroz e bipolarizada. Eu entendo que o modelo europeu falhou, por diversas razões, mas por uma essencial: não podemos ser meio federalistas nem podemos ter meias soberanias nacionais. Ou somos ou não somos. O esquema adoptado é, hoje, um fracasso completo. Mas se há aspeto no qual o modelo europeu não falhou foi, precisamente, na perceção de que teriam de ser dadas ferramentas aos países mais “fracos” para poderem fortalecer as suas economias de forma a terem um papel digno nessa economia livre e global europeia. E aqui, façamos “mea culpa”. Fomos completamente “tugas”, governantes e governados. Governantes, porque não souberam criar os mecanismos necessários para controlar a atribuição e o uso dessas verbas; e os governados, porque preferiram andar de Ferrari a investir naquilo para que eram realmente destinados os fundos, ou seja, os seus negócios e as suas empresas.
Cavaco ficará para a história como o que mais teve e mais deitou fora.
 A seguir veio o inferno socialista. Guterres foi como se não tivesse sido, ou seja, desde o dia em que chegou, logo quis ir embora e esperou, pacientemente, por uma desculpa que lhe parecesse razoável, tal como Barroso viria a fazer uns anos mais à frente. O Governo de Guterres entrou naquela onda louca de engordar a despesa pública. Percebo, porque o problema socialista é de base, é de conceito. O investimento público não gera, só por si, riqueza. Aliás, só por si gera dívida. Deve ser feito com prudência e controlo de forma a que seja estratégico, com eficácia real na economia. Não é por pormos o Estado a gastar, a comprar às empresas, aos privados (que são os que verdadeiramente geram riqueza) que resolvemos o problema da competitividade e do nosso tecido empresarial, porque somos nós, os empresários e os trabalhadores que vamos pagar essa fatura. Logo, não há uma riqueza real criada, mas sim um buraco disfarçado. Eles não percebem isto, mas não é de hoje. Nunca perceberam nem poderão perceber porque, como disse, é um problema de conceito.
A seguir tivemos Barroso, que fugiu, Santana Lopes que foi alvo de um golpe de Estado presidencial infligido por Jorge Sampaio, e esse vulto, José Sócrates. A atua-
ção deste Sr. como primeiro-ministro pode caracterizar-se em algumas palavras-chave: mentira, loucura, irresponsabilidade e hipocrisia. Se quiséssemos esco–lher propositadamente um péssimo governante, não teríamos escolhido melhor. Reconheço-lhe duas e apenas duas competências que sobressaíam: mentia como ninguém e acreditava nas suas mentiras e loucuras. Se responsabilidade jurídica houvesse a retirar dos seus atos e dos danos que causaram ao país não haveria moldura penal que pudesse compensar a sociedade dos males causados.
Passos Coelho e o seu governo não fizeram, garantidamente, tudo bem, mas, até ver, são meros instrumentos a cumprir o acordo de Sócrates.
Uma palavra para a desonestidade intelectual e política de Portas que quis tomar uma posição pelo partido como se não estivesse no Governo. Numa frase, é de uma covardia atroz.
Portugal viveu décadas acima das suas possibilidades e agora terá de descer de nível, de se situar no patamar que lhe é devido. Às vezes é preciso mingar para depois poder crescer. O nosso problema não é apenas político, é cultural e social. E essa transformação tem de ocorrer. Não é fácil, não é agradável, mas tem de acontecer.




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