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Após as manifestações

1 Acompanhei pela Rádio e pela TV as manifestações de descontentamento realizadas no passado dia 15. Na minha opinião, é mais que legítimo que as pessoas se manifestem, dizendo, com clareza, se concordam ou não com as decisões de quem as governa. A todos os níveis: local, concelhio, nacional. Há que alertar as pessoas para o exercício do direito/dever de cidadania. E este há de fazer-se sempre, e não apenas em dia de eleições.

Silva Araújo
20 Set 2012

É muito desejável que todos acompanhem o dia a dia das comunidades a que pertencem. E que expressem as suas opiniões, que podem ser de aplauso ou de discordância, sabendo louvar e sabendo censurar.
 
2. O exercício do direito/dever de cidadania deverá ser exercido de uma forma consciente e responsável. Que se não vá para a rua simplesmente porque os outros também vão e se não levante o braço porque o líder mandou.
Que ninguém se deixe instrumentalizar, atuando como carneirada. Que cada um saiba o que quer e o que não quer; o que é possível e o que o não é. E o diga claramente.
Todos lucramos, se sempre agirmos, todos, como cidadãos adultos. Se houver um clima de respeito pelas pessoas, onde cada um, de forma ordeira, exerça os direitos de liberdade de expressão e de opinião. Onde o cidadão comum diga, sem medo e com respeito, o que pensa, e os que detêm o poder não venham depois com qualquer tipo de represálias, punindo quem discorda.
Para dizerem o que pensam os cidadãos não necessitam de recorrer ao uso de qualquer forma de violência. Não precisam de insultar, de chamar nomes, de atentar contra o património, de arremessar objetos seja contra quem ou o que for.
 
3. Estranhei que entre os manifestantes tenham surgido pessoas de cara tapada. Quem, sem ofender ninguém, usa de um direito que lhe assiste, não tem por que recear ser identificado.
Também estranhei que, numa manifestação que se pretendia apartidária, tivessem surgido punhos fechados.
 
4. O exercício do direito/dever de cidadania exige a existência de meios através dos quais as pessoas se manifestem.
Neste pormenor, penso que algo há a fazer no acesso do comum dos cidadãos ao uso dos Meios de Comunicação Social e na utilização destes como verdadeiros instrumentos de diálogo. Não terão, por certo, a missão de manipular as pessoas ou de as formatar conforme determinados interesses e conveniências. Deverão ter a grande finalidade de contribuí-rem, com isenção, para a existência de cidadãos cada vez mais livres, mais conscientes, mais responsáveis. Fá-lo-ão, colocando-se ao serviço de todos, não agindo como a voz de quem os controla, pondo acima de tudo o bem comum.
Também me parece merecer reflexão a importância das chamadas redes sociais e o uso que delas se faz.
 
5. Ao direito que o cidadão tem de falar corresponde em quem manda e decide o dever de ouvir. De refletir. De ver até que ponto os descontentes têm razão e a sua vontade pode ser satisfeita.
Governar não consiste em impor teimosamente opiniões pessoais, em defender interesses particulares seja de quem for, mas em tomar as medidas que o bem comum exija.
Que os senhores da política, onde às vezes se pode ficar com a impressão de haver algo de amadorismo, se deixem de batalhas de palavras, de campanhas demagógicas, de dizer mal só por dizer mal, mas se deem as mãos e se empenhem na busca e defesa das melhores soluções para os problemas do País. E isto é incompatível com a prática de, como parece, andarem em constante campanha eleitoral.
 
6. Na situação em que nos encontramos, há que informar sobre a situação real do País, sem ter receio de pôr em causa seja quem for. Há que ter a coragem de identificar os responsáveis pela crise, para que o cidadão comum saiba de quem se deve acautelar. Há que explicar às pessoas, com o máximo de verdade, as decisões que se tomam, mostrando-lhes, com dados concretos, que uma coisa é o desejável e outra, o possível
Na exigência de sacrifícios, que se diga porquê e para quê. Se proceda com justiça. Mais se exija de quem mais pode. Se comece por dar o exemplo. Se atue sem precipitações. Se não queira fazer num dia o que pode ser feito ao longo do mês.
 
7. Nota final. Recomendo a leitura, na íntegra, da nota pastoral «Missão da Igreja num país em crise», publicada segunda-feira pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa. Até ao momento em que escrevo apenas vi o texto completo na Internet.




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