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Outro Ponto de Vista

Incomodado pelo exemplo cívico de uma personagem em recente prestação televisiva que, não obstante o estatuto de assalariado, é principescamente pago com os dinheiros dos nossos impostos, um tal de António, que parece falar bem inglês (!), recorro, com a vénia devida, a uma reflexão do Senhor Professor Adriano Moreira, procurando demonstrar, deste modo, a diferença abissal entre um homem de Estado que serve e um apenas serviçal:“De vela ao cadáver de Salazar, fui-me lembrando de muitos acontecimentos relacionados com a vida pública da nossa terra, em que a sua presença foi dominante. E também de alguns relacionados apenas com o seu modo de ser, que marcou o estilo do Governo e da administração e o estilo de uma geração de dirigentes.

Acácio de Brito
31 Ago 2012

Dos que o seguiram e dos que o combateram. Todos marcados, na sua intimidade mais funda, pelo homem e pela sua ação.
Recordarei aqui duas imagens persistentes. Numa manhã de Domingo, do ano de Angola Mártir, fui visitá-lo ao forte do Estoril. Como cheguei a pé, não tocaram a sineta que habitualmente chamava para abrirem os portões do caminho de acesso dos automóveis. Subi a breve escada que ali existe. Ao fundo do pátio, onde se encontra a capela, as portas desta estavam abertas. De frente para o altar, a sós com Deus, Salazar cuidava da toalha e das flores e das velas. Pensei que não tinha o direito de surpreender esta intimidade. Regressei vagaroso pelo mesmo caminho. Pedi para tocarem a sineta. Quando voltei a subir a breve escada do pátio, já ele estava sentado na sua velha cadeira, mergulhando nos negócios do Estado. Era a imagem de um homem de fé segura, sabendo que haveria de prestar contas. A brevidade da vida iluminada pelos valores eternos. O PODER AO SERVIÇO DE UMA ÉTICA QUE O ANTECEDE E TRANSCENDE.
Acrescento outra imagem desse tempo. Recordo os discursos, as notas, as entrevistas, as declarações, em que sucessivamente definia a doutrina nacional de sempre para crise da época. Tudo escrito pela sua mão. Mas depois, não obstante a urgência e a autoridade pessoal, tinha a humildade de chamar os colaboradores, ler em conjunto, discutir, e emendar. A GRANDEZA NATURAL DE QUEM PODE ACEITAR DOS OUTROS, SENDO SEMPRE O PRIMEIRO.
E assim foi exercendo o seu magistério. Com fé em Deus e recebendo agradecido os ensinamentos do Povo. Porque nunca pretendeu sabedoria superior à de entender e executar o projeto nacional. E nunca quis mais do que amar até ao último detalhe a maneira portuguesa de estar no mundo, preservando e acrescentando a herança.
O Ultramar foi a última das suas preocupações maiores. Como se, ao crescer em anos e diminuir em vida, quisesse guardar todas as energias para sublinhar a essência das coisas. Todos os cuidados para a trave-mestra. Doendo-se por cada jovem sacrificado. Rezando, e esperando que o sacrifício fosse entendido e recompensado. DE
JOELHOS PERANTE DEUS E DE PÉ DIANTE DOS HOMENS. HUMILDE COM O SEU POVO, ORGULHOSO PERANTE O MUNDO.
ASSIM VIVEU, ACERTANDO OU COM ERROS, MAS SEMPRE AUTÊNTICO.
COM PRINCÍPIOS. O único remédio conhecido contra a corrupção do poder. E muito principalmente quando se trata de um poder carismático, como era o seu caso. Um desses homens raros que a fadiga da propaganda não consegue multiplicar. Porque ou as vozes vêm do alto ou não existem. Não há processo de substituir o carisma. Por isso, também, essa luz que tão raramente se ascende, é toda absorvida pelo Povo, o único herdeiro. Soma-se ao património geral. Inscreve-se no livro de todos. Pertence à História. Transforma-se em raiz”. [2009, Moreira, A.]
O sublime do testemunho de Adriano Moreira permite-nos perceber a vacuidade de tantos que nos têm ultimamente saído como pseudoentendidos de coisa nenhuma, até porque o tempo depura as perceções do passado.




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