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A TDT, a crise económica e o sonho

A TDTNuma destas últimas noites de calor abafadiço, estava eu refestelado na cama a assistir pelo televisor equipado com o novo sistema de transmissão, conhecido por TDT (Televisão Digital Terrestre), a um programa sobre a crise económica que está a afetar o país, quando o som e a imagem do aparelho entraram em violentas convulsões. O som desapareceu e o ecrã apresentou um borrão policromático, parecendo uma pintura abstrata. Bem ao centro, lia-se: «Não há sinal».

Álvaro José Pontes Oliveira
31 Ago 2012

No Gerês, este tipo de anomalia técnica tem vindo a acontecer todos os dias. São mais as horas em que não há sinal do que as em que há. Quem quer ver televisão tem de recorrer às empresas que estão no mercado, mediante o pagamento de uma taxa mensal. Ora, nesta altura do ano, em que as unidades hoteleiras se encontram, felizmente, com uma taxa de ocupação a rondar os 100%, as permanentes interrupções do sinal tem posto em franja os nervos dos geresianos, em geral, e dos donos das unidades hoteleiras, em particular.
É caso para dizer que, se estávamos mal servidos com o sistema antigo, ainda ficámos pior com o novo. Neste momento, está em curso um abaixo-assinado entre a população para enviar à PT, com conhecimento aos senhores Presidente da República e 1.º Ministro.

A crise económica
Até perder o sinal da televisão, com ilustres economistas da praça, empenhados em explanar as causas da crise que está a afetar o país (como se os portugueses não as conhecessem já), de realçar apenas as irritantes interrupções da apresentadora do programa que, num timbre de voz firme e autoritário, fazia ver aos palestrantes, em particular, e a todos os espectadores, em geral, estivessem onde estivessem, que era ela, e apenas ela, quem comandava e direcionava o debate.
 Feito o diagnóstico da crise, cada um dos insignes economistas traçava o correspondente receituário para a debelar.
Por momentos acreditei, (santa inocência, a minha!) que algum deles tirasse da cartola uma fórmula, uma mezinha que fosse, que tratasse da grave enfermidade que tanto está a afetar os portugueses das classes média e baixa. Mas não, nada de novo.
A conversa girava num repetitivo e sonolento “vira o disco e toca o mesmo”. Os distintos economistas não se cansavam de falar na “troika”, nos “mercados”, na “recessão”, no “desemprego”… Respeitando religiosamente as suas ideologias políticas, os economistas iam indicando caminhos para debelar a crise.
De repente, senti um sobressalto. Um deles apontou como medida impreterível para acabar com o maldito défice baixar os salários dos trabalhadores. Esfusiante – como terá ficado Arquimedes quando descobriu aquele que ficaria para sempre conhecido como «O princípio de Arquimedes», não me contive e exclamei:
– Finalmente! Finalmente aparece uma ideia… escandalosa!
Nenhum português se atreverá sequer a duvidar que uma medida “estrutural e milagrosa” desta envergadura terá efeitos quase imediatos no controle do défice! – pensei.
Já agora, eu que não sou economista mas estou tão empenhado em combater a crise como o tal economista, proponho que, além da redução dos salários dos trabalhadores, estes sejam obrigados a reduzir o consumo de pão às refeições e fora delas, das batatas, dos legumes, do azeite, do arroz, da massa e dos feijões, com que confecionam a sopa. É que, feitas as contas, se em cada lar conseguirem poupar em média, diariamente, 20% daqueles produtos…
Depois, estou certo, por efeito dominó, virão outras poupanças, no papel higiénico, na água, na eletricidade…
Passaram cinco, dez, vinte, sessenta, cento e vinte minutos. A mensagem no centro do televisor continuava a informar os eventuais espectadores: «Não há sinal».
Irritado, lembrei-me do desabafo de muita gente: «Se estávamos mal servidos com o sistema antigo ainda ficámos pior com a “maravilha” da TDT».
Matutando na receita do economista e na irritante mensagem no ecrã do televisor, demorei a adormecer.

O sonho
Sonhei que Portugal ultrapassara a crise económica e vivia agora em franca prosperidade; que havia pleno emprego; que o governo ressarcira os funcionários públicos e os aposentados do subsídio de férias que lhes esbulhou; que a comandita da troika fora expulsa do país; e que o iluminado economista “amigo dos trabalhadores” lhes pediu publicamente desculpa.
Sonhei ainda que o problema da falta de sinal da TDT tinha siso resolvido. O principal responsável pela empresa da “televisão digital terrestre” dera a cara na televisão e declarara solenemente: «Caros espectadores, vivemos no século XXI. A tecnologia, nomeadamente na área do áudio-visual, avança a um ritmo alucinante. Problemas como aquele que vos estava a afetar não se justificam. E que ninguém pense que nós estivemos a protelar a resolução do problema com a intenção de levar as pessoas a firmarem contratos com as empresas que disponibilizam o sinal mediante o pagamento de uma taxa mensal».
Três da manhã. Acordei. Liguei o televisor. No ecrã, continuava a irritante mensagem: «Não há sinal.» E a crise? Será que já se foi?
Sonhar é bom…




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