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O homem e o mar

Por vezes, escrevo um texto para o qual tenho alguma dificuldade em arranjar título a meu contento. Então procuro algo ou alguém em que me possa inspirar; desta vez foi o título da obra de Ernest Hemingway “O velho e o mar” (no seu original “The old man and the sea”) que veio em minha ajuda.

Bernardino Costa
30 Ago 2012

“Quando eu era pequeno pass(e)ava às vezes pela praia” (peço estas palavras emprestadas a Sophia de Mello Breyner Andresen para iniciar o presente escrito) à procura de algo que me ajudasse a passar o tempo. E muitas vezes assistia à saída para o mar de barcos de pesca e ao seu regresso a terra, ao areal da praia, com o produto da sua faina, afinal o seu ganha-pão. Impelidos pelos remos movidos pelos braços dos pescadores com a pele tisnada pelo sol, carregados de esperança numa boa pescaria, qual barca de Pedro, regressavam assim, cheios de pescado, umas vezes, desiludidos outras, porque nem sempre o mar lhes dava quanto eles esperavam; ainda e sempre impelidos pelos mesmos braços, talvez mais cansados do esforço entretanto despendido.
E eu ficava-me a ver aquela faina, da qual sobressaía o esforço humano e a força animal dos bois que, pachorrentamente, como é seu timbre, ajudavam os homens a arrastar para e do mar as embarcações, quando o tamanho delas o exigia; e depois do barco em terra, no areal, seguia-se o arrastar da rede com o pescado que nela havia caído. E eu, curioso, ficava-me a admirar todos e cada um dos movimentos daquela arte da xávega, algo impressionado porque o pescado, já fora da água, tentava em vão respirar, apenas o ar, através das guelras, para sobreviver, mas acabando por sucumbir a decímetros ou a poucos metros de distância do seu habitat, como peixes fora de água.
E o tempo passa, cada vez a correr sempre mais depressa, esvaindo-se cada ano após o anterior. E eu já não mais sou pequeno, mas continuo a passear pela praia à procura de algo que me distraia, que me ajude a passar o tempo; e continuo a assistir à saída para o mar dos barcos de pesca e ao seu regresso a terra, ao areal da praia. Só que, de alguns anos a esta parte, comecei a reparar que os barcos são impelidos não pelos vigorosos braços humanos, mas por motores, e que no regresso ao areal os pachorrentos bois são substituídos pelos cavalos do motor dos tratores. Assim disse há dias a pequenina criança de ano e meio, repetindo a terminação do que a sua mãe lhe dizia: “Fomos ver o barco”, e ela: “aco”; “mais o trator”, e ela: “tatô”.
Aproveito para dizer que a morrinha mais o cacimbo resolveram vir passar esta [aquela] tarde à praia pois acham que não são só os humanos que a tal têm direito; e que, tal como estes últimos, ao fim da tarde, regressaram a penates, lá para o alto do firmamento.
No seguimento do fio condutor deste escrito decido ir ao texto “Castelos de areia” (do meu livro já anteriormente referido) e pescar dele umas quantas frases: “Quando as minhas filhas eram pequenas eu passa(e)ava, às vezes, pela praia para elas se sentirem felizes; e levava-as ao banho para elas se sentirem mais confiantes e seguras na companhia do pai (e da mãe). Quando eu já não era pequeno e as preocupações da vida deixaram de ser pequenas, os castelos de projetos e ideais desmoronavam-
-se como autênticos castelos de areia quando fustigados pelos ventos das preocupações e da adversidade. Então a praia começou a ser para mim um oásis de serenidade”.
Dias mais tarde foi o nevoeiro que resolveu vir a banhos; tão denso, numa cortina tão espessa que pouca visibilidade permitia: ali adiante, nada se vislumbrava; um pouco mais para cá, apenas deixava ver fantasmas que, um pouco mais perto, se transformavam em vultos, os quais apenas a meia dúzia de metros se tornavam realmente pessoas. Gostou de ter vindo naquele dia; tanto que veio no outro também e no outro ainda.
Depois foi a vez de o sol (re)aparecer, ainda que titubeante, pouco seguro do seu próprio  calor.
E para que o quadro ficasse completo, a própria chuva deu, uns dias depois, um ar da sua graça, graça para ela, que não para os veraneantes, os quais tiveram que se refugiar debaixo de telha, para não armarem barraca no areal da praia todo molhado.
E parece-me melhor pôr ponto final neste escrito; senão, com o tempo assim inconstante, corro o risco de não o acabar tão depressa.




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