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O velho e as mamas de silicone

A ousadia do título fica muito aquém da ousadia da nossa indiferença para com o velho que um dia também seremos. A verdade é que a nossa velhice não nos apoquenta, e apenas pensamos na nossa presente juvenilidade enérgica, sem nos inquietar o futuro incógnito do nosso envelhecimento. De que forma é que nos preocupa a morte solitária dos nossos mais velhos? Quais as soluções com vista à resolução deste problema? Uma das possíveis respostas é sem dúvida “Lar para idosos”.

José Rego
29 Ago 2012

A palavra Lar carrega em si o significado sublime e nobre de um aconchego físico, emocional e afetivo, onde podemos reviver no presente as alegrias e mágoas do nosso passado e planear em paz e com inspiração o futuro da nossa vida. E “Lar para idosos”? Qual o seu significado? O “Lar para idosos” só é bom para o velho com Doença de Alzheimer. É fácil perceber porquê. Porque já perdeu o seu poder de julgamento de tudo o que o rodeia num “Lar para idosos”, sendo-lhe totalmente indiferentes os maus-tratos a que sobrevive no dia a dia. Maus tratos não são apenas as agressões físicas, mas também o comportamento daquele funcionário do “Lar para idosos” que usa e abusa do telemóvel pessoal do velho para chamadas particulares, que faz chantagem financeira se quer que lhe continue a prestar os cuidados necessários, que lhe exprime uma mímica agressiva e humilhadora quando o velho não cede à vontade caprichosa do funcionário, tendo-o já ”tomado de ponta”. Maus tratos são também obrigar o velho a interromper o seu sono repousante só porque o argumento de ter de levantar-se cedo para que se dê início às limpezas matinais é mais forte do que respeitar a autonomia do velho que tão só quer descansar mais um pouco, como o fazia no seu verdadeiro Lar. Mais: maus tratos, por estranho que pareça ao leitor, é também o infantilizar o velho:
– Ó Sr. António (quando não o tratam por avozinho), que fresquinho e bonitinho que está. Você ainda está rijo. Lindo menino!  – diz o novo, passando-lhe as mãos delicadamente, pela base do queixo, como se de uma criança se tratasse. Infantilizar, infantilizam-se as crianças, porque são infantis. O velho não gosta de ser infantilizado, mas sim tratado como um adulto, e não esqueçamos que o velho ainda é um adulto. Agora imaginem que o Sr. António exprimia perante o novo a vontade, e vontade não lhe falta, de não ser infantilizado:
– Por favor, não me trate como uma criança! -Coitado, perderia muito mais, porque o novo ripostaria: «Olha-me o diabo do velho, eu a fazer-lhe um carinho e o “estupor” ainda me diz que não gosta! Ai o velho! Que vá para o “raio que o parta”!».
As gerações mais novas argumentam que não podem cuidar dos seus familiares mais velhos em casa, avistando como única solução o “Lar para idosos”, porque têm as suas profissões, porque não têm condições em casa, porque não têm dinheiro, etc., etc., etc.. O que têm a mais, sei eu, é realmente o comodismo moderno, porque as gerações anteriores, muito mais pobres e miseráveis, com muito menos condições físicas e financeiras, cuidavam dos seus velhos. Porém, devemos compreender os mais novos de agora, e com todo o cinismo digo que não lhes é possível cuidar dos seus mais velhos porque prioritário é a sua vivenda de luxo (muitas vezes oferecida pelos próprios velhos), o seu carro de luxo, as suas férias de luxo, os seus implantes mamários de luxo. Seria apenas necessário que ora filha, ora genro, ora filho, ora nora, abdicassem do seu trabalho, mas não o podem fazer porque têm de cuidar da realização daquelas prioridades todas. Mas lembrem-se os novos que também envelhecerão, incluindo tudo o que é de silicone.
Não são poucas as vezes em que o velho depois de ser internado, aquando da alta hospitalar, e sem que alguém respeite a sua autonomia de cidadão com plenos direitos e lhe pergunte sobre a sua vontade, mais não volta para o seu querido e amado Lar, mas vai diretamente para o “Lar de idosos”.
Creio que muitos velhos preferem morrer sós, no seu Lar, a morrer acompanhados no “Lar” que não é seu, nem que a solidão signifique morrer mais cedo por que não foi socorrido por ter sofrido um enfarte agudo do miocárdio.
Finalizando, com todos os sentimentos de culpa da sociedade por deixar os seus velhos morrer na solidão do seu Lar, e para expurgar esse sentimento de culpabilidade vão enjaulá-los num “Lar para idosos”. Será que alguém terá a lucidez de perguntar ao velho, respeitando a sua autonomia, (e o novo que não a confunda com independência, pois um velho pode estar fisicamente dependente, mas mantém a capacidade e o direito de decidir sobre a sua própria vida – autonomia – e esta deve continuar a ser respeitada), como dizia eu, alguém vai ter a lucidez de perguntar ao velho se não preferirá morrer só no seu próprio Lar?




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