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Eu faço o que muito bem entender!

Nunca houve tanta vontade de debater o tema da verdadeira liberdade como nos dias de hoje. É frequente, seja numa discussão de futebol, moda ou política, alguém rematar com a malfadada frase “Eu faço o que entender, afinal, sou livre de pensar como quero e tenho direito à minha opinião”. Fatores sociológicos e psicológicos levam alguém a dizer isto.

Diogo Bronze
27 Ago 2012

À parte, analisemos resumidamente a frase “Eu faço o que entender”. Nesta pequena frase, o indivíduo geralmente diz mais do que pretende e entra em evidente contradição consigo próprio, ainda que não perceba. Alguém que tem, antes de mais, a desmedida graça de ter sido trazido à vida contingente por terceiros, sem o seu próprio consentimento, o que é um óbvio milagre natural, mas começa logo por ser a sujeição total do ser que é à realidade daquilo que o faz ser.
Isto significa que, se alguém é, está inerentemente condicionado por si mesmo e pela sua própria existência (para não falar de todas as outras condicionantes psico-físicas do ser humano, como a incapacidade de voar).
Outro ponto interessante é o predicado “fazer”. Isto é, como poderá alguém “fazer” algo, não estando já à partida inserido e limitado por todo um sistema social e cultural? Como será possível então fazer o que entende, já que o entendimento está formatado à realidade?
“Sou livre de pensar como quero”. Existem dois pontos interessantes nesta frase. Primeiro, é bom verificar como a liberdade moral e a ética cristã estão tão bem vincadas nos corações portugueses, ainda que sejam depois, inteletualmente, os alvos a abater pelos pontas de lança da vanguarda pensante, livre e liberal, que julgam o sistema moral divino como algo antiquado a erradicar.
Quanta tolerância têm os liberais defensores do espírito livre, que não aceitam a própria tradição social e civilizacional, quanto mais a dogmática religiosa? Representa isto o temor dos seres contingentes, limitados, em assumir um código de conduta que os liberta, precisamente pela submissão à norma.
A liberdade é algo inerente ao Homem, a partir do momento em que este surge no ventre da sua mãe. Apenas se pode deixar abarcar pela plenitude da sua própria liberdade, quando, de plena vontade e consciência, aderir a um código transcendente de valores, isto é, a moral (fundação essencial de um Estado de Direito e Humano). Logo, quem pensa como quer e mal utiliza a sua própria liberdade neste processo, está igualmente a dizer que também faz matemática como quer ou que come com as maneiras que quiser e até educa os seus filhos como entender. É uma total desadaptação à inserção social.
“Tenho direito à minha opinião”. Esta é a estocada final, onde o indivíduo se faz valer de toda a sua proteção social e jurídica para arrumar o assunto. Aquele que, no começo de uma frase, assume a postura de quem desafia a norma, a autoridade ética e os transcendentes ideais humanos, acaba, no final, por se servir deles mesmos para se justificar, não percebendo que o direito existe precisamente pela elaboração destes pressupostos morais, inegáveis, inabaláveis e intangíveis.
Como se não chegasse tanta incoerência, arrogam-se o direito de defender a imobilidade da sua postura, opinião e vida, mesmo quando perante os factos racionais e lógicos, aos quais é impossível negar a veracidade. Como se poderá considerar uma “mente aberta”, um verdadeiro liberal, se a sua opinião está imóvel e estanque à verdade, por mais desconfortável que esta seja?
Continuaremos, sem dúvida, a ouvir esta frase. Resta saber se teremos a caridade de ajudar e corrigir quem a pronuncia, ou simplesmente evitar tocar no assunto para não ferir a suscetibilidade alheia.




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