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Borda Fora

O navio “Império” da Companhia Colonial de Navegação aproximara-se. Lisboa à noite. Ao longe, avistavam-se as luzes cintilantes da capital. Passageiros excitados reclinavam-se na amurada. Deleitavam-se. Há duas horas, aquele contemplar luminescente. Começara trémulo, intenso. Crescia o crepitar. O luxuoso navio aproximava-se do porto de Lisboa. Visão gigantesca.

Cristina Brandão Lavender
25 Ago 2012

23 de março de 1937.
Em oposição ao término das outras viagens de Luanda, os tripulantes permaneciam inquietos. O comandante, acompanhado de dois oficiais, não saíra da sala de comunicações. Os sons contínuos da máquina de morse agoiravam.
Os cerca de cem passageiros da classe de luxo e da primeira classe contiveram-se nos camarotes.
Marco e João Meireles fumavam os charutos que o amigo Zino Davidoff enviara. A caixa estreara-se naquela mesma cabina. Três dias antes. Agora, quase vazia. Ofertara-a generosamente, nos “Portos de Honra”, após o jantar, sempre bem-disposto.
O comandante tinha uma mesa selecionada de convivas. Conversas animadas: política internacional, negócios, jogos, o futuro.
Um dia antes de chegarem ao Funchal, o alerta soara. O Major Abílio Fernandes não comparecera para o pequeno-almoço. O Comandante não estranhara, mas, ao almoço, recusara-se a começar sem a sua presença. Não era de bom tom.
O paquete de serviço recebera o recado: saber da disposição do Major; perguntar em que lhe poderia ser útil. Ninguém respondera.
Chave mestra em punho, o comandante e o paquete abriram a porta. Vazio. Nem vivalma. Tudo arrumado. Na mesa da luxuosa suite, três copos de whisky e um pedaço de papel manuscrito saindo da Bíblia: “A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.”
Passaram o navio a pente fino, do porão ao convés de luxo.
Marco Meireles (o pai) e João Meireles (o filho) afiançaram em tom lúgubre:
– Suicidou-se. Não resistiu aos danos deliriosos que a malária lhe infligiu no cérebro. Conseguiu os seus planos. Esta é a minha opinião. Mencionou-o várias vezes desde dezembro. Viver perdera merecimento. Nem quis ir passar o Natal com a família.
O casal Bragança e a filha rejeitaram liminarmente. Não o achavam capaz de tal cobardia. Era uma pessoa de bem, ansioso por chegar a Lisboa. Trazia importantes informações. Em surdina, foram-se afastando do convívio do grupo do Comandante.
Marco e João Meireles viram-nos sair – mais vezes que os outros passageiros interrogados – da cabine do comandante.
“Major em missão importante a mando do Governo Português. Segredo de Estado. Ninguém pode sair do navio sem ser questionado pela Polícia de Intervenção.”
 Aquele desembarque iria ser longo, pensara Marco. Bebera, na companhia do filho, um whisky para animar o Major. O paquete-adjunto fora o último a vê-lo. O relatório sobre produção anual café/cacau, a apresentar ao Ministério do Ultramar, desaparecido. Ordens do topo da hierarquia de Lisboa. Cumpridas.
O major fora borda-fora do Império.
O paquete-adjunto Joaquim iria dentro, na Capital.




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