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O país não é só austeridade…

A ideia de austeridade está hoje presente entre os portugueses de tal forma que inevitavelmente qualquer conversa aí vai parar. Sabemos que o problema é económico e também aí residirá a solução. Investimos sem ter e nem sempre bem, andámos anos a adiar o que sabíamos dependia de nós. Tivemos, pois, estranhas e pouco esclarecidas opções, das quais, reconhecemos agora, estamos a sofrer os efeitos, agravados pelo contexto europeu, que em nada nos favorece.

J. Carlos Queiroz
23 Ago 2012

Feito o diagnóstico, o tratamento surgiu com o actual Governo, certamente com vontade de fazer qualquer coisa para a mudança. Porém, até agora, sabe a muito pouco o sucesso que, por vezes, alguns políticos visionam. O País não pode ser apenas austeridade para travar o processo de endividamento. A recessão, o aumento de desemprego, a competitividade, a redução de custos e o apelo à poupança, não fazem, só por si, desaparecer a realidade vivida e a pobreza existente. As pessoas necessitam de alimentos, de habitação, de condições para viverem com um mínimo de dignidade. Estamos a falar de pessoas com direitos e a viver num País da Europa, onde periodicamente se fazem cimeiras, para solucionarem, dizem-
-nos, as principais questões que afetam os Estados.
É difícil de aceitar a desigualdade existente em Portugal. Nunca esteve em causa o merecimento, as competências, os sacrifícios e o desenvolvimento de atividades mais ou menos lucrativas, até porque o bem-estar e a riqueza são sempre bem vindos. Muito menos haverá a ideia de que os ricos são os culpados da pobreza. Em causa está o País no seu todo e a forma como se desenvolvem políticas num determinado sentido. No fundo, são as opções e as formas encontradas para prosseguir objetivos, que podem e devem ser contestadas, quando se entenda que caminhamos no sentido errado e teimamos em não mudar de rumo.
Investir sem ter, pedir empréstimos a juros exorbitantes, fazer obra sem cuidar dos custos imediatos e futuros, não parar a tempo de impedir maiores problemas para o País, quando já está num contexto de grande endividamento, aí, sim, parece haver um grave erro de estratégia política. Mas será que pretender, com tanta austeridade, mudar de rumo faz algum sentido? Muitos são os especialistas em economia e os comentadores políticos que dizem que não, da mesma forma que se traçam cenários sobre uma Europa confusa e pouco solidária, também ela demasiado preocupada com as questões económicas e amarrada a um projeto que depois se complica, à medida que algumas economias mais débeis, necessitam de novas ajudas ou empréstimos.
O problema já não é apenas com os países do sul. Começa a ser com os do centro e, a curto prazo, senão mesmo já, de todos os países do Euro. Significa que a austeridade agrava a nossa pobreza e não vai ser capaz de, por si só, contribuir para o relançamento da economia e a consequente criação de emprego. Todas as teorias parecem caminhar no mesmo sentido: o problema é da economia e sem crescimento não há soluções milagrosas.
Não adianta dar agora razão aos eurocépticos quando alertavam para as desvantagens da moeda única, da mesma forma que nada resolve pensar numa estratégia fora do Euro. Por agora, a palavra de ordem terá de ser no sentido de trabalhar, criar postos de trabalho, lutar contra a pobreza, apoiando instituições sociais e famílias, procurar políticas de desenvolvimento, capazes de exportar e, ao mesmo tempo, apoiar investimentos e retirar carga fiscal, alguma pelo menos, para desenvolver internamente maior atividade.
Retirar poder de compra aos trabalhadores e pensionistas é contribuir para o fim das pequenas e médias empresas e, por arrastamento, criar novos desempregados. A contenção nas despesas e a procura de dinheiro para suportar encargos e obrigações anteriormente assumidas, necessitam de tempo e também de sensibilidade política e social, para evitar o aumento da pobreza e consequente instabilidade social.
Fala-se muito num esforço coletivo e em motivação, mas isso só será possível com o esclarecimento dos cidadãos perante os sacrifícios que lhe são pedidos e com bons exemplos, onde não abundem situações de desigualdade ou favorecimento, de exceções quase sempre inexplicáveis, de nomeações ou promoções geradoras de mal estar. O País necessita de uma estratégia que combata, de imediato, o desemprego e a pobreza. Sem trabalho, exigindo apenas austeridade e sem vontade política para a mudança, ficaremos sempre na cauda duma Europa que apenas nos acompanha enquanto alunos obedientes. Até um dia… Compete aos políticos encontrar soluções, mas nunca esquecer quem vive com os problemas.




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