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Cremação

O Bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, entendeu oportuno, em nota pastoral datada de 6 do corrente, recordar a disciplina da Igreja sobre a cremação de cadáveres. Pode um católico pedir que, após a morte, o seu cadáver seja cremado? 

Silva Araújo
23 Ago 2012

Pode, desde que isso não signifique descrença na doutrina da Igreja sobre a vida do Além e a ressurreição dos mortos. Se o significar, deverá ser privado de funeral religioso.
A Igreja aceita que as pessoas manifestem essa vontade mas desaconselha-a.
 
Lê-se no número 2301 do Catecismo da Igreja Católica: «A Igreja permite a cremação a não ser que esta ponha em causa a fé na ressurreição dos corpos».
 
O Código de Direito Canónico, por sua vez, diz que «a Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã» (Cânone 1176 §3.)
 
O mesmo Código lembra que nem todos devem ter funeral religioso:
«Devem ser privados de exéquias eclesiásticas, a não ser que antes da morte tenham dado algum sinal de arrependimento:
1.º os apóstatas notórios, os hereges e os cismáticos;
2.º os que escolheram a cremação do corpo próprio, por razões contrárias à fé cristã;
3.º os outros pecadores manifestos, aos quais não se possam conceder exéquias eclesiásticas sem escândalo público dos fiéis
(Cânone 1184 §1.)»
No caso da cremação, as razões que levaram a pessoa a solicitá-la devem ser publicamente conhecidas. Caso contrário, prejudicar-se-ia a fama do defunto.
 
O Ritual Romano da Celebração das Exéquias, na sua edição de 2005, dedica o capítulo V à celebração das exéquias no caso de cremação do cadáver.
Começa por afirmar que «a Igreja prefere que se conserve o costume tradicional de sepultar os corpos dos cristãos, porque com este gesto se imita melhor a sepultura do Senhor. Os fiéis têm, contudo, a liberdade de preferir a cremação do seu próprio corpo, sem que esta escolha impeça a celebração dos ritos cristãos (n.º 149).
 
No caso da cremação, as exéquias celebram-se perante o cadáver, antes da cremação do corpo, e com os mesmos ritos e fórmulas que se usam nas exéquias habituais (n.º 150).
 
Uma vez que este rito não inclui a procissão ao cemitério e a bênção do sepulcro, o rito da Encomendação e Despedida deve celebrar-se na própria igreja no final da Missa ou da Liturgia da Palavra (n.º 151).
 
Embora seja melhor e mais expressivo celebrar o rito exequial antes da cremação do cadáver, se a família o preferir e o Ordinário do lugar o julgar conveniente, pode permitir-se também que a cremação tenha lugar antes dos ritos exequiais. Neste caso, o rito, mesmo com a Missa exequial, pode celebrar-se perante a urna com as cinzas (n.º 152).
 
Se as exéquias se celebram depois da cremação do cadáver, perante a urna, esta será levada, no fim da celebração, ao lugar – cemitério ou columbário – destinado para este efeito. Em caso algum a urna com as cinzas do defunto poderá levar-
-se de novo à igreja para a comemoração do aniversário ou noutras ocasiões (Idem).
 
Na referida nota, D. Ilídio salienta: «as celebrações exequiais efetuar-se-ão na Igreja e terminarão na Igreja, com a “última encomendação e despedida”, não existindo acompanhamento religioso para o forno crematório ou para o lugar de deposição das cinzas. Fica ainda proibido que, para celebrações do 7.º e 30.º dias e/
/ou aniversário ou outra qualquer celebração, as cinzas voltem à Igreja».
 
A nota de D. Ilídio Leandro foi provocada por notícias segundo as quais, em Viseu e em Mangualde, vão surgir, em breve, fornos crematórios que estarão à disposição de quem opte por este sistema de tratar a sua sepultura.
Presentemente há em Portugal 16 crematórios.




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