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Os políticos portugueses: a dialéctica entre a obra e a promessa

No dealbar da década de 90, um célebre presidente dum clube de futebol, arquirrival dos nobres guerreiros bracarenses, proferiu a seguinte frase: “No futebol, o que hoje é verdade, amanhã é mentira”. Trago hoje esta afirmação à colação porque considero que os iluminados políticos portugueses, que tão danosamente têm conduzido os destinos de Portugal, começam a adotá-la como cartilha atitudinal.

Paulo Renato de Almeida
22 Ago 2012

Senão vejamos: O exilado engenheiro José Sócrates, nos idos de março de 2011, propalava aos sete ventos que Portugal estava a sair da crise, apresentando uma nova atualização do famoso PEC 4 e que jamais seria necessário recorrer ao apoio de entidades externas. Menos de um mês depois, a 6 de abril, anuncia ao País, num tom próximo de um derrotado vitorioso (já havia pedido a demissão do cargo no dia 23 de março), que iria enviar um pedido formal de assistência financeira à União Europeia, marcando, na oportunidade, o terceiro carimbo do FMI na história recente de Portugal;
O então candidato do PSD, atual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, já em plena pré-campanha eleitoral, numa visita a uma escola em Vila Franca de Xira, a uma questão duma adolescente, profere uma mensagem de esperança em relação ao corte de subsídios, anunciando que seria um disparate qualquer corte. Todos sabemos, com inegável inveja do mais competente alfaiate, a profusão de cortes que, menos de 3 meses depois de ser eleito, executou com singular descaradeza.
O sumo magistrado da nação, aquele que outrora nunca se enganava e que raramente tinha dúvidas, quando Sócrates lamentava a descida de rating da nação, efetuado, pelas execráveis e de duvidosa valia científica, agências de rating, no momento em que valorava os atributos do PEC 3, vaticinava nos seus habituais públicos “monossílabos”: “Deixem funcionar os mercados” e “Retórica de ataque aos mercados é um erro”. Todavia, num discurso a 20 de janeiro do ano em curso verberou: “fico surpreendido pela forma como 27 chefes de Estado se deixam condicionar e aceitam a chantagem política feita pelas agências de rating”.
Por certo, que os exemplos seriam incontáveis. Contudo, o que interessa presentemente é aferir a que grau de desgraça estas diatribes têm conduzido este secular País. E a conclusão parece óbvia: a três décadas de regressão socioeconómica inimagináveis a curto prazo. Porém, perante esta hecatombe que erradicou os saudosos 3 “dês” de abril, que tão amarguradamente conquistámos, (Democracia, Desenvolvimento e Descolonização) e os substituiu por outros três de idêntica sigla alfabética, (Depressão, Desemprego e Desconfiança), urge apelar à consciência patriótica de nove milhões de portugueses (os pobres e a classe média empobrecida) e sensibilizá-los para a luta. Uma luta diferente dos nossos egrégios avós que, em tempos obscurantistas, ousaram dar novos mundos ao mundo, trilhando as mais inimagináveis provações!
Urge, pois, dar voz à sociedade civil, às novas elites populares para que recorram aos métodos que a democracia lhes facultou e que denunciem em uníssono e de forma plenitroante as desventuras desta política atual.
Ousemos não deixar que o Ministério Público, de forma aplacante e com assaz inércia, diga que desapareceram as provas dos submarinos. Em alternativa, relembremos aos sete ventos o incomensurável número de fotocópias que o então ministro da Defesa, Paulo Portas, efetuou na véspera da vacatura do cargo.
Não deixemos passar em claro a promiscuidade entre a Justiça e a Política, que faz com que o Freeport se arraste no tempo, sem culpa dos polvos, mas com condenação das petingas e com incomensuráveis escutas, valoradas na Comarca de Aveiro, mas completamente subalternizadas pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Não toleraremos os dislates dos autarcas que propalam que o centro de estágios de Gaia, apesar de propriedade e uso exclusivo de um grande Clube Português, tenha custado ao erário público dois milhões e meio de euros, sem que um sequer munícipe de Gaia possa desfrutar da valia do mesmo.
Pelo poder do voto, não permitamos mais que Isaltinos e Companhia se perpetuem no poder, rivalizando com as condutas autocráticas de Hugo Chavez ou Eduardo dos Santos.
Enfim, façamos de novo emergir os ideais oitocentistas que tão sagazmente foram defendidos pelo movimento iluminista e arduamente conquistados pela Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Aprender com os erros do passado é a maior virtude dos homens! Contudo, errar e não se emendar é errar duplamente. E os nossos políticos atuais têm primado pela persistência no erro, ignorando a máxima do grande sábio Lao Tsé: “Aprender é como remar! É só parar e anda-se para trás”.
Oxalá a performance dos canoístas olímpicos os inspire, porque o engenho, nem por isso.




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