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Um olhar em redor

Encerrados que foram os Jogos Olímpicos de 2012, afadigam-se agora os diversos comentadores, desportivos e outros, a proceder ao balanço final da nossa representação em Londres, uma embaixada bem numerosa, diga-se de passagem, constituída por cerca de 50 atletas e quase outros tantos acompanhantes, entre os quais dirigentes, médicos, preparadores físicos, treinadores, convidados, etc., pois nestas ocasiões quantos mais melhor.

Joaquim Serafim Rodrigues
21 Ago 2012

De tudo se ouve e lê agora: desapontamentos, um país a brincar, uma das mais tristes prestações portuguesas de sempre. E isto sem falar nas inevitáveis mesas redondas, onde peroram alguns que, de onde em onde, emitem as suas opiniões perfeitamente quadradas.
Parto sempre em desvantagem em relação a todos estes “especialistas na matéria”, dado não dispor das mesmas oportunidades (leia-se escrever “em cima do acontecimento”). Não deixarei, contudo, de trazer à colação algumas achegas. Também pratiquei, quando jovem, vários desportos, tais como futebol, natação e atletismo, tendo passado nomeadamente pelo F.C. Porto e pelo Sport Clube Vianense, conservando jornais que atestam essa minha atividade, perfeitamente amadora, e à qual nos dedicávamos, nessa altura, com o maior dos entusiasmos.
Não poso deixar de evocar, nesta ocasião, o nome de um atleta de eleição que tomou parte nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1932, de seu nome António Sarsfild, do Sport Clube do Porto, funcionário da Caixa Geral dos Depósitos, e que, já nesse tempo, corria os cem metros em 10,6 segundos! Sem pistas de tartan, sem subsídios para treinar (fazia-o depois do serviço e aos domingos), rivalizando com outros dois sprinters do Académico do Porto, os quais, porém, nunca o batiam ­– os irmãos Prata de Lima.
As pistas, nessa época, eram de cinza e também não se dispunha ainda de blocos de partida, mas Sarsfild era um velocista prodigioso, alto, longilíneo, morfologicamente perfeito para a velocidade pura. Partiu para Los Angeles sozinho, a bordo de um paquete em cujo convés ia treinando durante a viagem. Chegado aos Estados Unidos, viajou ainda de comboio e chegou ao local dos Jogos um ou dois dias apenas antes do seu começo. Claro que não passou da primeira eliminatória – nem outra coisa seria de esperar, naturalmente.
Volvidos mais de 70 anos, nenhum português conseguiu, até hoje, baixar dos 10 segundos na referida prova. E, sejamos objetivos: não temos velocistas, corredores de fundo, saltadores em altura, discóbolos, lançadores de peso ou de dardo. E daqueles atletas que foram a Londres, a maior parte deles, dos quais se esperavam alguns feitos, nem os mínimos, obtidos aqui, conseguiram manter, antes ficaram abaixo deles!
Ressalvem-se aqueles dois canoístas e a meritória prestação de Jéssica Augusto da maratona. E é este desporto que temos, voltado quase exclusivamente para o pontapé na bola, enxameado de jogadores vindos de todas as partes do mundo, agora jogado durante a semana, à noite, à chuva e ao frio, com os adeptos assistindo em casa, instalados nos sofás, as bancadas dos estádios desertas, ou quase, quando dantes era uma festa e uma animação, ao domingo.
Este país de marinheiros não tem um nadador, não tem pólo aquático, dignos de nos representarem condignamente, lá fora. A Federação de remo deixou morrer a rainha das regatas disputadas em barcos “shel”, estreitos e compridos, rasando as águas e cortando-as velozmente ao impulso das remadas fortes e cadenciadas das tripulações, constituídas por quatro ou oito remadores, modalidade em que já ombreámos, anos atrás, com as melhores do mundo, vencendo-as, por vezes.
O mal deste nosso enfezado desporto é profundo, envolvendo o Estado, através das respetivas federações, e diversas outras entidades, sem dirigentes à altura e que apenas se servem dele, pois carece de uma enorme reestruturação.
Daqui a quatro anos, teremos provavelmente mais do mesmo: um grande séquito, atletas e acompanhantes, a mesma passeata a não perder, quem sabe se para gáudio dos brasileiros, os quais poderão enriquecer o seu anedotário em relação aos portugueses.
Oxalá não regressemos de lá deprimidos, pelo que não emprego, aqui e agora, como sinónimo, outro vocábulo mais raso!




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