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Deus apaixonado

O homem, criado à imagem e semelhança de Deus, também se pode apaixonar. A nossa questão está em saber como se poderá Deus apaixonar e por quem? A nossa imaginação, leva-nos a algumas conclusões:Deus apaixonou-se perdidamente. Quantos pais se afligem com o casamento dos filhos e tentam aconselhá-los. Mas eles, perdidamente apaixonados, não atendem a razões.

Isabel Vasco Costa
21 Ago 2012

Imagino que Deus se apaixonou por nós homens (as minhas delícias estão em viver no meios dos homens), sem olhar à razão, pois não somos da sua condição e nem sequer da sua natureza. Foi um amor de perdição, pois é impossível ao homem corresponder a tanto amor vindo de um Homem que é Deus e estava disposto a morrer para que os seus amados fossem felizes.
Deus declara o seu amor. Deus não pode morrer, mas os homens sim. Disposto a sofrer esse martírio, decide fazer-se Homem, verdadeiro homem, sujeito a todos os sofrimentos humanos. Escolhe uma mulher entre os homens, Maria de Nazaré, e declara-lhe o seu amor, o seu projeto: convida-a para uma vocação especialíssima: ser sua filha, sua mãe, sua esposa. Não admira a pergunta da jovem: “Como se fará isso?” E o Arcanjo S. Gabriel termina a sua embaixada explicando que tudo se cumpre bem com a graça de Deus: “A sombra do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra”. Com esta explicação, e usando a liberdade própria da sua natureza humana, a donzela aceita esse amor.
O amor divino é exigente. Todos os apaixonados têm um projeto de vida. O problema está em encontrar a “alma gémea” que esteja disposta a partilhar essa vida e esse projeto. No caso de Deus, o projeto era manifestar-se como Salvador dos homens, confirmar os preceitos já ensinados através dos profetas e sofrer um suplício atroz, até à morte, para redimir os homens. Assim, a Virgem Maria deveria estar disposta a participar desse sofrimento como testemunha sofredora, como Mãe do condenado. É nisto que consiste a vocação: aceitar o amor do outro e participar de toda a sua vida.
O amor de Deus é eterno. Os verdadeiros apaixonados desejam viver juntos para sempre. Entre os homens isso não é possível. A vida em comum começa no dia do casamento e termina com a morte de um deles. Porém, com Deus, o sonho torna-se realidade: o “casamento” realiza-se no momento da morte de cada homem, tendo sido a sua vida na terra um tempo de namoro com Deus, de aprofundamento no seu conhecimento, de “encontros amorosos” sempre que recebia os sacramentos. A felicidade é tanto maior quanto mais sério e bem preparado tiver sido esse “namoro”.
O amor de Deus é glorioso. Embora nem todos os filhos do rei venham a ser reis, a mãe do rei é sempre rainha. Foi o que sucedeu a Nossa Senhora. Participou dos sofrimentos do Filho para participar da sua glória. Algo semelhante acontecerá aos homens, de acordo com a correspondência à vocação de cada um.
Acrescento duas notas para terminar: a primeira está relacionada com o primeiro milagre de Jesus, o das bodas de Caná. Parece que Jesus se deixou levar pelo amor filial, fazendo a vontade a sua mãe. E talvez também pelo amor ao amor humano, algo que, como Deus, “introduziu” na natureza humana e supera (em entrega, inteligência, vontade e sacrifício) o mero instinto (também presente). A segunda nota relaciona-se com o martírio de S. João Batista devido ao ódio de Herodíades. João afirmava que não era lícita a sua ligação com Herodes, seu cunhado. Embora se considere ser Santo Estevão o primeiro mártir (os santos inocentes não perceberam qual a razão da sua morte), talvez por S. João ser considerado ainda profeta do Antigo Testamento, a verdade é que ele é assassinado por defender a unicidade do matrimónio. Não será lícito pensar que o primeiro milagre e o primeiro martírio vêm confirmar a primazia do amor?




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