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Miguel Torga e a peregrinação internacional a Fátima

Miguel Torga, pseudónimo literário do médico Adolfo Rocha, teria feito 105 anos no passado domingo. Por coincidência, o nosso Arcebispo D. Jorge Ortiga presidiu, nesse mesmo dia, a uma peregrinação a Fátima sob o malfadado lema: “Feliz o homem que teme o Senhor”. O tema escolhido pela Conferência Episcopal está em consonância com a mensagem veiculada em 1917, mas é o reverso da visão teológica professada pelo Concílio Vaticano II. Aproveito a oportunidade para uma breve reflexão cristã, em homenagem à memória do grande poeta da Língua portuguesa.

Agostinho Domingues
20 Ago 2012

O menino e jovem Adolfo Rocha recebeu, em Trás-os-Montes, uma educação católica tradicional, no seio duma humilde e honesta família de pequenos agricultores. A doutrina católica do seu tempo (aproximava-se dos 10 anos aquando das aparições de Fátima em 1917) estava mais próxima do Antigo Testamento do que da mensagem evangélica. A interpretação que os pastorinhos de Fátima fizeram das eventuais palavras ouvidas na Cova da Iria resultou das ideias por eles recebidas na catequese paroquial. O Deus pregado então era o de João Baptista – um Deus-Juiz, ameaçador e  terrífico – e não o Deus de bondade e de compaixão, anunciado por Jesus de Nazaré.
Torga faz a denúncia duma religião alienatória. Evoco aqui dois textos seus bem paradigmáticos: o conto “Vicente” de “Os Bichos”, de 1940, e o poema “Desfecho” de “Câmara Ardente”, de 1962. “Vicente” é o corvo da Arca de Noé, que reivindica a autonomia da criatura em face da prepotência do Criador. Em vez da fé cega e submissa a Deus ou aos que falam em seu nome, o crente assume em liberdade a responsabilidade pelos seus actos. Por sua vez, o poema “Desfecho”, que transcrevo, é um grito de protesto contra o silêncio de Deus:
 
“Não tenho mais palavras, / Gastei-as a negar-te… / (Só a negar-te eu pude combater / O terror de te ver em toda a parte). / /  Fosse qual fosse o chão da caminhada, / Era certa a meu lado / A divina presença impertinente / Do teu vulto calado / E paciente … // E lutei, como luta um solitário / Quando alguém lhe perturba a solidão. / Fechado num ouriço de recusas, / Soltei a voz, arma que tu não usas, / Sempre silencioso na agressão. // Mas o tempo moeu na sua mó / O joio amargo do que te dizia … / Agora  somos dois obstinados, / mudos e malogrados, / Que apenas vão a par na teimosia”.

O Deus de amor, com Quem os cristãos dialogam, um Deus pessoal, em dom gratuito, misterioso, mas presente na inspiração das suas vidas, está no avesso da educação religiosa, católica e protestante, anterior ao Concílio Vaticano II. Os discípulos de Jesus de Nazaré lêem sinais do Deus compassivo e acolhedor nos acontecimentos que os envolvem. Perturba-os o silêncio de Deus, sobretudo em face do sofrimento imerecido e das vítimas inocentes. Torga sentiu necessidade de se libertar dum deus opressor. Entre um Deus libertador e acolhedor e um deus “sempre silencioso na agressão”, optou pela negação de Deus.
Fiquei chocado com a notícia do lema escolhido para a peregrinação a Fátima. É um retrocesso lamentável. Será que a minha Igreja católica portuguesa não sabe descobrir os verdadeiros caminhos da evangelização? Estará, porventura, a solução em deturpar o nome de Deus? A História mostra que o temor de Deus, além de contrariar a mensagem de Jesus Cristo, não contribuiu para a valorização humana, individual e colectiva. A crise de valores que afecta a Humanidade actual exige uma resposta cristã que saiba colher as lições do passado e perspectivar o futuro. Não será a altura de a Igreja provocar os cristãos a assumirem, na teoria e na prática, os caminhos do poder em sentido evangélico, ou seja, de autêntico serviço do bem comum? Como compreender, por exemplo, que um cristão receba tranquilamente milhões de euros de vencimento, face à maioria com salários de miséria e de multidões de desempregados? Evangelizar é proclamar a justiça, é lutar pela libertação dos pobres e dos oprimidos, é desmascarar e combater todas as formas de corrupção e de alienação.    
Cabe às Igrejas cristãs, em fidelidade à mensagem de Jesus de Nazaré, incentivar uma verdadeira pedagogia de Deus. Os discípulos de Jesus Cristo, particularmente os chamados ao exercício de cargos de responsabilidade no Estado ou nas empresas privadas, devem pautar a sua conduta pelos princípios evangélicos. É essa a evangelização que se impõe como resposta à crise. Há que fazer da justiça a base imprescindível, sólida e duradoira da solidariedade cristã.
Agnósticos de notável grandeza humana como Miguel Torga ensinam os crentes a redescobrir o verdadeiro rosto de Deus. Também por isso importa manter viva a memória de Torga.




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