Fotografia:
A nossa dignidade

Todos sentimos que a vontade política dos nossos governantes está dependente de um memorando assinado no fim do anterior Governo e com o aval político dos que agora nos governam. Esta conclusão parece óbvia, mas levanta várias questões. Sempre se diz que as medidas tomadas ou a tomar são as necessárias para superar a crise.

J. Carlos Queirós
20 Ago 2012

Mesmo dando de barato que tudo continua a ser verdade, teremos um dia destes de voltar a avaliar a forma como nos governam e se, efetivamente, não estaremos de novo a viver sujeitos a opções meramente de controlo de défice, daí resultando o esquecimento duma componente fundamental no sistema político. Refiro-me, concretamente, às pessoas, aquelas que suportam encargos, sacrificam a sua vida e confiam naqueles que elegeram. Na verdade, a indignação existe e as razões sobejam, porque temos a certeza de que nenhum partido, na campanha eleitoral, nos falou com verdade quando apresentava os argumentos mais convenientes para conquistar o nosso voto.
A realidade do País, pequeno, pobre e endividado, não é apenas de alguns poucos anos. Ela apenas foi ignorada ou aparentemente omitida para acesso ao poder, ao Parlamento. Agora, difícil é explicar a continuação do endividamento em empresas públicas que reduziram, em menos de dez anos, o número de empregados para menos de metade, que encerraram linhas, que fecharam estações e aumentaram o preço dos transportes! Difícil será justificar vencimentos e pensões acima de quatro ou cinco mil euros por mês, mas continuar a considerar normais os níveis crescentes de desemprego e as falências e fecho de empresas! Difícil, ainda, entender debates e acusações entre políticos, sem que daí, aparentemente, resultem soluções para as grandes questões económicas e sociais que persistem.
Todos dizem ter preocupações, mas sinais de mudança, capacidade geradora de postos de trabalho, investimentos ou mesmo soluções para ocupar cidadãos ativos e desempregados, em ocupações mesmo temporárias, na prestação de serviços à comunidade, isso parece ser coisa demasiado complicada. Também sabemos que temos muita capacidade até para legislar. Temos normas para quase tudo, apesar de termos acabado um dia com a licença de isqueiro e com a folha de papel selado. Evoluímos, mas complicamos sempre qualquer coisa que depois gera burocracia. Perdemos muito tempo a falar de assuntos em vez de, objetivamente, resolvermos os problemas.
Uma outra questão prende-se com a nossa perda de soberania, ou não, isto é, quais as implicações das políticas seguidas em obe-
diência a este modelo político, que já se percebeu nem é do PSD, do CDS ou do Partido Socialista, mas depois, na prática, é apoiado por todos, por necessidade de Estado! Por muito que nos falem sobre projetos, depois sempre se diz que não podemos sair do contexto do memorando. Conclui-se que estamos endividados e são os credores que impõem o tempo, o espaço, o custo a suportar pelos cidadãos. Perdemos a liberdade de ter opções políticas, a partir do momento em que aceitámos um acordo unilateral, embora tivéssemos participado e anuído ao projeto apresentado como facto consumado.
Mas o País, é muito mais que números e défice. Existem milhões de pessoas que são o fim de todas as decisões, e todos os dias vivem momentos de preocupação e incerteza. A comunidade tem direitos e todos, enquanto seres humanos, devem merecer o respeito que a sua qualidade de pessoa impõe. A dignidade do ser humano também implica o direito ao trabalho, o direito a uma vida digna, a possibilidade de pensar e ter um futuro, uma esperança. Os direitos sociais são, afinal, também, direitos que implicam respeito pelo direito a viver com um mínimo de qualidade de vida, no país que é o nosso.




Notícias relacionadas


Scroll Up