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O olfato e a personalidade

Vinha do jardim infantil. Chegado a casa, a avó, depois de o receber, perguntou-lhe se queria um iogurte. Disse que sim. “Então, diz ela, aqui tens um, já com a tampinha aberta”. Ele pega no iogurte e reage: este não, este cheira a Henrique.

M. Ribeiro Fernandes
19 Ago 2012

A avó ficou intrigada e quis saber se esse iogurte tinha qualquer cheiro diferente dos outros, se estaria estragado, porque tinha sido comprado no mesmo dia. Ou estaria ela com anosmia? É que nem todos temos o mesmo grau de sensibilidade olfativa e esta também se pode ir perdendo com a idade. Pegou nele, cheirou-o melhor, mas não descobriu qualquer cheiro especial. Cheirava como os outros. Decidiu, então, prová-lo. Também o sabor era normal.
Que se passava, então?
Cerca de uma hora antes, o Henrique, o irmão mais novo, pegara no iogurte para o comer. Ainda chegou a abrir a tampinha de plástico, mas desistiu. Não lhe apetecia. Passado mais de uma hora, o irmão, com cerca de 5 anos, detetou o cheiro dele no iogurte.

1. Esse menino foi sempre uma criança frágil e sensível, com um modo de ser bastante diferente do irmão. Mais íntimo na relação pessoal e mais seletivo nas amizades: dá-se com todos, mas procura, como amigos, os que têm mais afinidade com ele. Emociona-se mais facilmente. Tem mais dificuldade em controlar as frustrações e as birras (e esse aspeto deve ser tido em conta por quem lida com ele, pois é uma condicionante neuropsicológica que ele não consegue controlar): leva mais tempo a fazê-lo do que o irmão, que é mais pragmático e conversador. É mais introversivo e, por isso, mais reservado: só está à vontade com quem se sinta aceite e compreendido. Enquanto o irmão gosta mais de brinquedos de ação, ele gosta mais de criar brinquedos de imaginação e, a partir daí, desenvolve relações práticas. Cria modelos originais de casas, esteticamente interessantes, a partir de legos. Tem mais sensibilidade musical e estética. Gosta da expressão poética, apesar da sua tenra idade. É delicado ao tocar nas coisas. Em pequenino, tinha dificuldade de adormecer, talvez reativa a incompreensões do seu modo de ser. Para adormecer, precisava que estivesse com ele e lhe cantasse uma canção de embalar. Mas só gostava se a canção fosse mesmo bonita, doce e cantada com o coração. Se fosse meramente repetir, recusava.

2. Admite-se que a parte mais antiga do cérebro, o rinencéfalo (expressão que se compõe de duas palavras: rin+encéfalo, isto é, cheiro e cérebro), que compreende as áreas olfativas e límbicas, se tenha desenvolvido a partir das estruturas olfativas mais arcaicas, o que pode significar que a capacidade para experimentar e para exprimir emoções se possa ter desenvolvido a partir da habilidade para processar os odores. A perceção dos odores tinha (e ainda tem, apesar do desenraizamento da nossa cultura citadina em relação à natureza), antes de mais, uma função básica de defesa: se gostar do cheiro, aproxima-se; se não gostar, se for estranho ou a nossa capacidade inata o desaconselhar, evita-
-se. Os animais nascem equipados com essa perceção defensiva. Os bovinos, por exemplo, evitam certas ervas quando pastam, mesmo que tenham fome: pelo cheiro, distinguem o que lhes faz bem e o que lhes faz mal.

3. A perceção dos odores tem duas funções básicas: a função de adaptação e defesa da vida e a função estética e afetiva. No campo da adaptação, o olfato é, geralmente, a nossa primeira resposta aos estímulos do mundo que nos rodeia. Por exemplo, o odor a gás em casa, para que possamos detetar se há fugas que ponham a vida em perigo (acrescentam um odor desagradável ao gás que se queima nos nossos fogões); o odor a queimado, para nos alertar contra incêndios; se há maus odores em casa, vamos logo procurar se há roturas nas canalizações…
No campo da função estética e afetiva, temos todo um mundo sexualizado e de associações pessoais, de memória de prazeres e amizades em que se identifica uma pessoa pela memória de cheiro que dela guardamos, associado a outras recordações. Por isso é que o negócio dos perfumes dificilmente entrará em crise. Um dia, perguntavam a um sujeito por que não gostava de certa rapariga que era apaixonada por ele. Resposta espontânea: porque não gosto do odor corporal dela. O cheiro funcionou como motivo para não se casarem, apesar de ela gostar muito dele.

4. Para além de nos ligar ao mundo que nos rodeia e ao mundo dos afetos, o olfato está também ligado intimamente às partes do cérebro que processam emoções e aprendizagem associativa. O bulbo olfativo integra o sistema límbico, que inclui a amígdala e o hipocampo, estruturas vitais para o nosso comportamento e que têm um papel importante no nosso humor e na nossa memória. E é aí que se organizam em perceções as nossas sensações do mundo. Daí que uma pessoa com mais sensibilidade olfativa seja uma pessoa mais sensível e delicada e que cultiva mais o seu mundo interior. No caso concreto desta criança e de outros como ela, a sua sensibilidade olfativa é indicador de um tipo de personalidade sensível que deve ser tida em conta por quem lida com ele, para que a não tratem como esquisito e ele se sinta incompreendido e rejeitado, marcando negativamente a sua personalidade.




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