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O ano em que fui a casa de Hermano Saraiva

1 – Por onde andava no ano de 1993 No ano de 1993, eu era um advogado recém-encartado, mas sem vocação. Acabara um pouco motivador estágio no escritório do tão veterano quão competente advogado Fernando da Fonseca, junto à câmara do Porto. Este notável jurista, fumador inveterado, magro, baixo, de cabeça grande e algo quadrada, nariz “de batata”, olhos verdes esbugalhudos, era um racionalista prático que me ensinou não poucas coisas.

Eduardo Tomás Alves
18 Ago 2012

Era amigo do meu protetor, o conselheiro Calejo, que foi padrinho de batismo do agora ministro Aguiar Branco. E amigo de Sá Carneiro. As partilhas do fundador do PSD, assim como o divórcio do médico Pinto da Costa passaram lá pelo nosso escritório.

2 – O sempre fácil encontro de intelectuais
Eu era de Direito, mas o que dominava era a História e a Política Internacional. A queda, quase ao mesmo tempo, da União Sul-Africana e da URSS, marcos indispensáveis da nossa mundividência, impeliu-me à escrita. Livros, era só para quem tivesse dinheiro e amigos. Nos jornais foi a minha opção. E eu, bem mais de Direita que de Esquerda, acabei calorosamente recebido no Jornal de Notícias, por esse famoso crítico de arte e jornalista radical de sinal bem diferente, que é César da Silva Príncipe. Curiosamente, uma das coisas que nos punham de acordo era (profeticamente) criticar a deriva liberal do então 1.º ministro Cavaco Silva. “Maastricht, o Rubicão e o Berezina” foi dos meus primeiros artigos no JN. Com a mesma consideração, fui, em 1998, recebido no Diário do Minho pelo então padre João Aguiar e pelo saudoso cónego Melo. Este último não me conhecia senão através da viva recomendação de Veríssimo Serrão que, por 20 anos, presidiu à  Academia de História.

3 – Numa manhã de outono, em 1995
A minha carreira de colunista no JN, haveria de durar até Janeiro de 2001 e ao advento dos administradores da benfazeja PT, os quais acharam que eu deveria ir “pregar a outra freguesia” menos maçónica e esquerdista. Mas o insuspeito esquerdista Jorge Cordeiro, meu editor, dizia que os meus trabalhos eram dos mais lidos. Em 95, e após três anos de positiva colaboração no JN, achei que estava na hora de também trabalhar para algum jornal de Lisboa, cidade onde vivera quatro anos. Pensei apresentar-me ao antigo ministro e embaixador Franco Nogueira, que tanto admirava. Porém, o estadista morreu nessa altura. O seu “suplente” era outra pessoa que eu admirava, José Hermano Saraiva. Sem nada preparar ou avisar, às 11 horas duma certa manhã de Novembro, decidi ir de carro à capital, falar com o mediático historiador. Herdeiro de lusitanos, godos e romanos, o vosso servo que vos escreve tinha, à época, a decisão e a paixão daqueles três povos. E, pelas cinco da tarde, lá estava eu na rua do Ouro, onde sabia que o notável fundanense tinha (tivera…) o seu escritório de advogado. Um simpático velhote, penso que porteiro, disse-me que o prof. Saraiva quase não exercia, mas lá me deu o telefone e a residência, no Restelo. Telefonei mas ninguém atendeu. Nada mais simples, dirigi-me de carro à casa do Restelo. Pelas 7 horas, noite fechada e a chuviscar, toquei e apareceu a prof.ª Lurdes Sá Nogueira, sua esposa. “Sou colaborador do JN e tinha muito interesse em falar com o sr. professor. Seria possível amanhã”? A senhora disse que ele estava muito cansado, mas que ia ver. Regressou dizendo que me recebia, de imediato.

4. A vingança de um velho que se sente “enganado”
É consabido que o prof. Saraiva era extremamente vaidoso. Acedeu a falar comigo porque pensava que o vinha entrevistar. Porém, iniciei a conversa dizendo que o apreciava muito e gostava que lesse cerca de 10 dos meus trabalhos e, caso gostasse, me recomendasse a algum jornal de Lisboa. Seguiu-se um quase monólogo de Hermano Saraiva, que durou uns bons 15 minutos. Enterrado num velho sofá, numa sala mal iluminada, os olhos semi-cerrados da fadiga (como um mocho de vez em quando lá abria um, fixando-me). Ele, que toda a vida julgou alunos, começou por dizer “a Bíblia diz, NÃO JULGARÁS”. Que tivera colegas com grandes notas mas que nunca foram “nada na vida”. E vice-versa. Só o interrompi, concordando, quando ele falou mal do que se passara na África do Sul. “Como vê, snr. dr., nada posso fazer por si”. Com alguma habilidade insisti e ele lá disse “olhe, eu tenho um sobrinho que é director dum jornal” (o Expresso, que eu detestava, e logo lhe disse que agradecia, mas nesse, decerto, não me achariam mérito”. “Deixe lá ficar, e depois telefone-me”. Abreviando: pelo Natal telefonei e o prof. Hermano disse que “enfim, não eram maus, mas que eu ainda estava muito verde”. E desejou-me (sic) “um santo Natal”. Hoje reconheço que ele tinha alguma razão. Mas argumentei com 2 cartas, muito cheias de filosofia, a que nunca respondeu. Referindo-me a Colombo, eu dizia que “havia ideias que valiam por 40 mil anos de trabalho”. E perguntei, a propósito do respeito que lhe devia, “quem é mais velho, o que nasce antes ou o que morre, que chega ao céu antes?”. Porém, tão espertos que nós 2 nos pensávamos e não sabíamos que éramos, eu e ele, desde há 2 anos, parentes por afinidade: minha prima Margarida F. Silva tinha casado com um Sá Nogueira (i.e.,”Sá da Bandeira”) e sua sogra era prima direita da esposa de Hermano Saraiva. Foi a 1.ª e única vez em que as nossas vidas se cruzaram… A ajuda que dele esperava acabou por vir da parte de Veríssimo Serrão, sem hesitações.




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