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Touradas, sim ou não?

A primeira corrida de touros realizada em Viana do Castelo foi em 1871, com a instalação da primeira praça no Campo d’Agonia, ainda de madeira, integrada na romaria em honra da Senhora. Em 1949, seria construído na Argaçosa, um edifício definitivo. A nova praça era composta por 4.900 lugares e 18 camarotes, dispondo mesmo de uma pequena capela no interior. Depois de alguma atividade inicial, o número de espetáculos foi diminuindo. A partir dos anos 90 do século XX, passou a receber apenas uma tourada por ano, por ocasião das festas.

Jorge Leitão
17 Ago 2012

No decurso deste facto ou porque o edifício estivesse a necessitar de onerosas obras de restauro, a Câmara de Viana do Castelo adquiriu a Praça de Touros em 27 de janeiro de 2009, pelo preço simbólico de 5.127,74 euros. A intenção inicial era criar um Centro ou Museu da Ciência Viva, semelhante ao Museu do Homem existente na Corunha. Posteriormente, em 2010, foi abandonada a ideia do museu e na praça será instalado o Centro de Mar. A verdade é que, com esta argumentação, a cidade de Viana foi a primeira localidade do país a decretar a abolição das touradas.
Quebrou-se, assim, uma tradição de século e meio. Sim, mas apenas por três anos! O Tribunal Administrativo de Braga acaba de dar razão a uma providência cautelar entreposta pela «Pró Toiro» (federação nacional das associações tauromáquicas), face à recusa da edilidade de autorizar uma nova corrida de touros. A tourada vai mesmo realizar-se domingo, 19 de agosto, na freguesia de Areosa, em terrenos integrados na Rede Natura e Reserva Ecológica, o que não deixa de ser caricatural, através da instalação de uma praça amovível. Deste modo, os «lobbyings» e o corporativismo associativo que haviam verberado contra o indeferimento do Município com invectivas como ”censura e fascismo cultural”, derrotou pelos tribunais a sua decisão, baseada na deliberação democraticamente sufragada no tempo do edil Defensor Moura.
Também ficou bem clara, se havia dúvidas, a tibieza decisória dos pequenos municípios, contra a força persuasiva de poderes pré-instalados. Ainda pesquisei se haveria alguma associação «Pró-Cão» ou «Pró-
-Galo», já que as lutas de cães e galos são proibidas, embora se realizem clandestinamente. É que, por detrás da «Pró-Toiro», há os ganadeiros sem os quais o touro (como se diz no norte), a única espécie herdeira das virtudes indómitas do arouque, também correria riscos de extinção como este. Depois há os empresários que organizam a festa taurina, os empresários das praças de touros, os empresários dos toureiros, até acabar nos peões de brega que ajudam na faena, mas não é por eles que as corridas um dia serão proibidas.
As pessoas da minha geração viam as touradas emitidas pela TV todas as 5.ª feiras, diretamente do Campo Pequeno. Nessa altura, ainda era pequeno e ficava eufórico com as lides de Mestre Baptista e com as pegas dos Amadores de Santarém. Emocionava–me com a coragem dos bandarilheiros, mas a humidez viscosa que cobria o dorso dos touros ou a espuma grumosa que se lhes grudava na boca, não me causavam qualquer impressão ou comoção. Era tudo a preto e branco, tal como a minha consciência em crescimento.
As touradas de Viana atraíam muitos forasteiros. Era gente fina, a equivaler pelas marcas dos carros que se enfileiravam num imenso cordão que, passando em frente à minha janela, se estendia pela marginal, até o perder de vista sob a ponte Eiffel.
Mas um dia cresci. Ainda andaria pelo liceu. Tinha uns trocados dos padrinhos e comprei um bilhete setor sol. Era o dia de estreia, em Viana, de Ricardo Chibanga, o matador negro. Finalmente, o espetáculo a cores. Eram belas as “toilettes” das damas, policromados os adereços, refulgentes os trajes dos atores. As cortesias, sai o primeiro touro, também negro, luzidio, começava a faena. Porém, à medida que o público aplaudia as estocadas, a pelagem rasgava-se, humedecendo-a de suor grumoso de sangue, empastado na boca e narinas. O saibro da arena tingido de torrado fulvo. Mais aplausos: mais um ferro, este bem no lombo e mais pele dilacerada. Era uma luta desigual. Só o cavaleiro poderia fugir, trocar de montada.
Toca a banda, a pedido. Termina a faena. Não há imperador para sinalizar quem vive e quem morre como no Coliseu de Roma. Foi Honório quem proibiu as lutas de gladiadores por intercessão do Papa Inocêncio I. Que gigantesco passo deu a humanidade. Não é permitido matar o touro, mas quando o animal saiu, ia ferido de morte, humilhado na sua condição de animal. Decidi ir-me embora. Acho que vomitei.
Não voltaria a assistir mais a qualquer transmissão das 5.ª feiras na TV, apesar de continuarem a ser a preto e branco.




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