Fotografia:
Os alertas da Igreja

Foi com este título que o Editorial do Diário de Notícias, de 30 de julho findo, teceu pertinentes considerações acerca da intervenção de alguns dos nossos bispos relativamente à política de austeridade a que temos vindo a ser sujeitos. Diz o articulista, e com toda a razão, que “no fundo, a missão da Igreja é esta: ser voz dos que têm pouca ou nenhuma voz.

Domingos Alves
17 Ago 2012

Tendo uma posição política que não se confunde ou mistura com a política partidária, mas que, por ter essa dimensão suprapartidária e de conhecimento muito próximo de quem está mergulhado na crise, deve ser mais escutada”. É aqui, aliás, que está o cerne da questão: a Igreja devia ser mais ouvida, quer através da Hierarquia, quer através dos responsáveis pelas suas Instituições: “paróquias, cáritas, instituições de solidariedade social ou outros movimentos que se encontram no terreno”, e que  de perto lidam com as maiores vítimas das medidas troikianas: pobres, desempregados de longa duração e jovens à procura do primeiro emprego.
Não foi surpresa para ninguém, por conseguinte, que as palavras há tempos proferidas pelo bispo D. Januário Torgal Ferreira provocassem algum “escândalo” em certos meios políticos e até ferissem a mole cerviz de uns quantos “bem intencionados”cá da nossa praça”.
“O bispo D. Januário sempre deu, e continua a dar, um testemunho comprometido do Evangelho, seguindo os mandamentos de Jesus. (…) Dando a César o que é de César, não pode nenhum bispo ficar indiferente ao que César dá (ou não dá) aos pobres, bem como perante o empobrecimento da classe média, a transformação dos pobres em paupérrimos, tudo isto a par de um enorme respeito de César pelos ricos” (José Madureira, in Diário de Notícias  supra citado).
Com mais ou menos palavras, com maior ou menor serenidade e desassombro, mas sempre defendendo os mesmos princípios,  já  D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, dizia  o mesmo há um bom par de anos.
Mais recentemente, e aquando do encerramento do Festival  Jota, integrado na programação de “Braga, Capital Europeia da Juventude 2012”, D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz de Braga, convictamente proclamava: “hoje, olhando para os políticos, verificamos que não se procura a  igualdade”(…) esta crise não é económica, mas deve-se a um modelo onde subsistem privilégios e desigualdades”. E mais adiante “apenas querem (os políticos) saber do seu próprio bem-estar ou do grupo e partido a que pertencem” (Diário do Minho, 23 de julho de 2012).
Palavras duras, mas bem justas, sensatas e, sobretudo, muito adequadas à lamentável situação política, económica e social de uma nação “doente” e com poucas perspetivas de  futuro risonho, pelo menos a curto prazo, quando é sabido que, entre outras maleitas, o compadrio e a corrupção, o oportunismo e a injustiça vão caminhando de mãos dadas numa quase conspiração diária que a todos envergonha e muitas vezes até revolta. Não me peçam é para dar exemplos tristes.

Até parece que, infelizmente, “em Portugal, somos herdeiros de uma tradição democrática que tem pouco a ver com a da Grécia Antiga e muito que ver com alguma república africana, em que o poder judicial está completamente submetido ao poder político” (José Madureira, in Diário de Notícias já referido).
Não foi, certamente, por acaso que Caio Júlio César,  grande político e general romano (séc. I a. C.) um dia  desabafou, referindo-se aos povos da Península, mais ou menos desta maneira: “Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar”.
Sem comentários…




Notícias relacionadas


Scroll Up