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Tributo a Helena Cidade Moura (1924 – 2012)

Por ocasião do falecimento de tão ilustre e distinta Cidadã de Portugal, Helena Cidade Moura, a Civitas Braga não pode deixar de, publicamente, prestar-lhe um tributo, através da publicitação desta comunicação, nos jornais locais, e com conhecimento a todos os sócios. Por decisão tomada na última reunião da Direção da Civitas Braga, coube-me a mim, elaborá-la. Um desafio, mas também, uma honra e um privilégio.

Margarida Vilarinho
15 Ago 2012

Desde 2003, ano da constituição da Civitas em Braga, a Civitas esteve e, em memória, continuará a estar ligada à Dr.ª Helena Cidade Moura, tentando que os seus ideais, continuem vivos e atuantes, no projeto da Associação. Temos procurado trilhar, com muitas dificuldades, a estrada, dura e inacabada, dos Direitos Humanos.
Helena Cidade Moura tinha um mestre: Paul-Henry Chombart de Lauwe, (1913-1998) e foi sob esse ideário que construiu as bases do que entendia ser necessário para reconstruir um Portugal, devastado pela guerra colonial, pela governo do Estado Novo, onde o analfabetismo era a doença que mais afetava o povo, em geral, e que deixou tão fortes marcas negativas que, mesmo com os esforços feitos na educação, no pós 25 de Abril, ainda hoje se ressentem.
Paul-Henri Chombart de Lauwe, foi um notável antropólogo francês, mas foi, particularmente, um cidadão e um intelectual comprometido com o abrir caminho para uma sociedade democrática. Fez parte da resistência francesa, na 2.ª Guerra Mundial. Nos bairros onde viveu, interessou-se pela vida dos operários e suas condições de vida. Mas também, pelos problemas da interculturalidade. O Centro de investigação–ação que Helena Cidade Moura procurou criar no Alto da Ajuda, vinha-lhe da inspiração, partilha e exemplo do Paul-Henry. Apontava e citava dele: “Sem transferência de conhecimentos, não há desenvolvimento.”
Para além de ter sido uma das primeiras mulheres deputadas, pelo MDP-CDE, que ajudou a construir, e de ter dado um enorme contributo no Parlamento Português, o seu grande projeto de vida era um imenso e duro combate à iliteracia. Por isso, foi pioneira na organização das grandes campanhas de alfabetização, no nosso país. Muito lhe devemos. E, como não podia deixar de ser, o seu outro mestre, foi Paulo Freire.
Foi neste registo que a Civitas Braga, logo após a sua constituição, organizou um Fórum Sobre Literacia, em dezembro de 2004, no então Instituto da Juventude, com a colaboração de investigadores da Universidade do Minho e de outras proveniências.
O Conselho da Europa e a Unesco, nesta última década, recomendaram aos governos, o maior empenho nesta na causa da Literacia. Helena Cidade Moura, em muitas das atividades organizadas pela Civitas, (hoje, Liga Portuguesa dos Direitos Humanos – Civitas), dizia que era obrigatório nomear o Direito à Literacia porque é da maior urgência que a Literacia apareça como um Direito. Cito palavras suas: “É gravíssimo o facto de Portugal ser na Europa o País mais atrasado no campo da compreensão, do cruzamento da informação, da percepção. Esta situação atinge a adaptabilidade no trabalho, o rendimento humano, o rendimento empresarial, a inserção social, a criatividade do espaço público, a dinâmica cultural.”
Em maio de 2004, na Fundação Engenheiro António de Almeida, no Porto, realizou-se um dos Plenários Nacionais da Civitas. Era, nessa altura, Presidente da Direção, Helena Cidade Moura. Estiveram presentes membros dos órgãos sociais da Civitas Nacional, mas também, representantes das Civitas Locais, incluindo a Civitas Braga. Entre outros assuntos da ordem de trabalhos, coube à Professora Isabel Pires de Lima, fundamentar a proposta de outorga da qualidade de sócio honorário da Civitas, ao Dr. Mário Soares. O mesmo coube ao Professor José Rebelo para o ex-Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Era um desejo da Dr.ª Helena Cidade Moura: sabia que estes dois ilustres cidadãos, pelos seus percursos na luta pela institucionalização da Democracia no nosso País, pelos Direitos Humanos, pelo combate à pobreza, à exclusão social e dando voz aos cidadãos mais desprotegidos, enriqueceriam as fileiras da Civitas. E seriam exemplos, diferentes, mas consubstanciais, do caminho a prosseguir. Sempre.
Lembro-me que, das duas vezes que a visitei no lar, na Rua de Diu, em Lisboa, apesar da sua fragilidade, a sua marca de determinação, a sua forma de olhar o Outro, revelavam-se na sua essência. Uma força anímica saía da sua voz já cansada. Foi uma honra estar com a Helena.
Na hora em que fisicamente nos deixa, é muito forte o sentimento da sua presença pela força, pela coragem e determinação, com que lutou pelos seus ideais e que nos impele a trabalhar, sem hesitações, na Civitas Braga, na e pela promoção e defesa dos Direitos dos Cidadãos, e apelando ao exercício da cidadania ativa, juntando sinergias com outras instituições, em tempos tão conturbados, quanto os que vivemos. Será este o mais ousado e difícil tributo que prestaremos a Helena Cidade Moura. O seu exemplo e o seu saber, serão mais poderosos.




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