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O futuro muda-se agora

A política está de férias, mas isso não significa que os governantes não continuem a pensar o futuro do país. A rentrée fará certamente eco disso. Serão ainda decisões na linha do memorando. Só mais tarde, no próximo ano, se tudo correr bem, estaremos fora das malhas apertadas da troika e a caminhar pelo próprio pé.

Luís Martins
14 Ago 2012

Teremos então a oportunidade para decidirmos, mais ao nosso jeito, sobre o que queremos ou não. Creio, no entanto, que não será nada de muito nem mesmo razoavelmente diferente do que está a acontecer. A margem de manobra continuará curta. O pior que nos poderia acontecer era não termos isso em conta.

Não haverá quase ninguém, no país, que tenha gostado das medidas decididas para fazer face à emergência nacional. Não havia outra forma de gerir a situação. Insistir na irresponsabilidade esbanjadora era matar-nos de vez. Não gostamos das medidas, resmungamos como nunca antes – que me lembre –, mas a medicação não podia ser outra. Quem se delicia com um injectável ou um supositório? Podemos questionar se a dose foi a certa, mas sobre o princípio activo ninguém pode discordar.

É verdade que o Governo não teve a oportunidade de pensar muito pela sua cabeça, embora esperasse poder fazê-lo – tem estado dependente dos compromissos assumidos – mas o que fez, fê-lo de acordo com o que era suposto fazer. O resultado justifica, para já, os meios: Portugal conseguiu atenuar a pressão externa exercida sobre o país, condição sine qua non para se iniciar a recuperação. Precisava de mostrar que era merecedor do apoio de terceiros, o que fez ao inverter o comportamento ímpio dos últimos anos, reduzindo a despesa pública e o peso do Estado na economia. Ao Estado o que é do Estado, à economia o que é da economia. Uma distinção que importava fazer e que o Governo de Passos Coelho não deixou para outros. Não está tudo feito, é certo, mas uma parte já está decidida. Talvez as férias de Verão possam servir para que se preparem os passos seguintes.

É claro que o processo não se está a fazer sem dor. Sofremos e isso vai continuar, mesmo depois da troika ir de férias depois do próximo Verão. Creio que será assim. Por isso, desde que seja respeitada a margem de tolerância, o melhor mesmo é que nos consciencializemos de que vamos viver o resto dos nossos dias em condições menos favoráveis do que admitíamos há três, quatro ou meia dúzia de anos. Viveremos com o cinto apertado mais um ou dois furos, mas o importante é que nos mantenhamos à tona de água e com a dignidade a que temos direito. Façamos por isso. Desde já.

Apesar das evidências dos sacrifícios dos portugueses, há quem continue com a cantiga enganadora. Alguns ajudaram a criar a situação, puseram-se de fora e advogam agora coisa diferente que não poderiam fazer por força das circunstâncias. É o Partido Socialista (PS) em todo o seu esplendor de demagogia. Atenção! Os portugueses podem e devem evitar que a cantiga chegue ao top. É verdade que ainda estamos longe, mas já imaginaram a situação de o PS poder ganhar as próximas eleições? Um partido que arrastou o país para a situação em que estamos, que agora critica as medidas implementadas ­– as da troika que ele próprio subscreveu ­– e vir a ganhar eleições para implementar as mesmas medidas que o governo actual teve de tomar e que os socialistas não param de criticar! Eis a demagogia pura em ação. No seu pior.

Seguro sabe que teria de seguir o mesmo tratamento, utilizar os mesmos químicos, mas tem andado a dizer-nos – claro que não explicitamente na esperança de que não percebamos – que faria diferente e que viveríamos melhor. Seguro anda a convencer-nos que o problema é fácil de resolver, bastando que fosse ele a conduzir-nos o destino, quando sabe que a solução não chegará no curto prazo, mas tão só daqui a, pelo menos, dezena e meia de anos, altura em que voltaremos a adquirir o poder de compra que perdemos nos últimos anos. Sabe ainda que o cinto não voltará a alargar-se nos próximos tempos. Nos próximos anos pode decidir-se uma ou outra eleição, mas não se recupera o que a crise tirou aos portugueses em geral. Dizer o contrário, como está a ser feito, é iludir-nos.

O futuro muda-se agora. Desde agora. Não pode ser esquecido em detrimento do presente que faz ganhar ou perder eleições. O futuro é hoje. Precisamos de exigir isso aos nossos políticos e a nós próprios. Não cedamos a demagogia barata e irresponsável. Se não continuarmos a mudar, o futuro será breve e igual ou pior ao que foi construído pela geração de vários políticos socialistas que nos governaram antes. Por mais que nos descoroçoe, a crise não desaparecerá rapidamente. Vai continuar a merecer a nossa atenção. A esperança deve animar-nos para o longo e muito longo prazo. Não deve confinar-se ao curto e ao médio prazo.




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