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Mais ouvir do que falar (assim é rezar)

1 Muito se lamenta, hoje em dia, a agitação exterior. E, no entanto, pouco se alimenta, hoje em dia, o aprofundamento interior. Gostamos de sair: de sair de casa, de sair de nós. Mas é importante também saber entrar: entrar em nós e, a partir de nós, entrar nos outros.

João António Pinheiro Teixeira
13 Ago 2012

2. É cada vez maior a propensão para transportar o frenesim do quotidiano para a oração em vez de transportar a paz da oração para o quotidiano.
Se repararmos, até o orar está tolhido pela pressa, pela pressão. Dificilmente nos sentamos e raramente nos ajoelhamos.
Não escutamos quem, afinal, está no nosso íntimo. Na oração, falta esperar. Lutero tinha dito que «quanto menos palavras, melhor». O importante é escutar: escutar a palavra e escutar o silêncio que nos traz a Palavra!

3. Confesso que, às vezes, me assusto com a determinação, isenta de qualquer dúvida, dos que falam sem escutar. Dos que falam de Deus sem se disporem a escutar Deus. Dos que agem em nome de Deus. Dos que julgam em nome de Deus. Dos que condenam em nome de Deus.
Parece que têm uma «linha directa». Parece que Deus está totalmente neles em vez de serem eles a procurar estar em Deus. Deviam ouvir, todos esses, o apelo de Shakespeare: «Dobrai-vos, joelhos teimosos»!

4. A melhor oração não é aquela em que não damos conta de mais nada. A melhor oração é aquela que nos ajuda a dar conta de tudo.
Abel Herserg assinala que um rabino viu que o seu filho estava em profunda oração. Nem dava conta de um bebé que chorava.
«Filho, não ouves?». Responde o filho: «Pai, eu não ouvi porque estava mergulhado em Deus». Replicou o rabino: «Meu filho, quando mergulhamos em Deus, até vemos uma mosca a andar pela parede».
Se Deus está em tudo, estar em Deus significa procurar encontrá-Lo em tudo!

5. Como é óbvio, podemos pedir coisas a Deus. Mas a essência da oração não é pedir; é unir. E, no entanto, já George Bernard Shaw reconhecia que «a maior parte das pessoas não reza; só pede.
É preciso ir mais longe. S. Francisco de Assis defendia que, «quando rezamos, não devemos estar à espera de nada». Acrescentaria que, quando rezamos, devemos estar preparados para tudo. Devemos, nomeadamente, estar preparados para, em tudo, nos unirmos Àquele que nos conduz a Deus: Jesus.

6. Um jovem monge fez um longo caminho pelo deserto para visitar um grande santo.
Quando regressou, perguntaram-lhe: «Por que é que fizeste todo este caminho? Foste fazer alguma pergunta ao santo?» «Não» – respondeu o jovem. «Foste pedir algum favor espiritual?» «Também não». «Então, que foste fazer?» «Fui vê-lo bebericar a sua sopa!»
A oração é isto: procurar Deus, procurar ver como é Deus.

7. Não devemos rezar para que Deus faça um mundo à nossa medida. Essa tarefa cabe-nos a nós. Devemos rezar para aprender a viver rectamente no mundo tal como ele é. E Deus aparecer-nos-á em cada espaço, em cada tempo e sobretudo em cada pessoa desse mundo.
Daí o conselho de Maomé: «Para onde quer que te vires, aí encontrarás a face de Deus». Ele surge, muitas vezes, como a ausência escondida em muitas presenças. E desponta, não raramente, como a presença incluída em muitas ausências.

8. É por isso que a oração é um mistério de encontro, que percorre até os nossos próprios desencontros.
Como dizia Gandhi, «a oração é a chave da manhã e o ferrolho da noite». Com ela acordamos. Com ela adormecemos. Nela repousamos!




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