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O menino que queria ser televisão

É uma pequena história, daquelas que ficam na memória. Lia-a num mail que por aí circula e considero-a uma metáfora perfeita da necessidade de atenção que a criança tem da parte dos pais. É assim: uma vez, uma professora do 1.º ciclo pediu aos seus alunos para fazerem uma redação sobre o desejo que gostariam de pedir a Deus nessa noite (digo redação, porque há quem lhe tenha mudado o nome para composição. Há pessoas que pensam que podem mudar a realidade, mudando o nome às coisas… Composição tem um significado mais estético, mais poético. Redige-se um conto, mas compõe-se uma poesia).

M. Ribeiro Fernandes
12 Ago 2012

Mas, voltando à história, os alunos ouviram o pedido da professora, concentraram-se, cada um imaginou o seu desejo e procurou traduzi-lo em escrita.

1. Passado o tempo marcado, a professora recolheu as redações e levou-as para casa para corrigir e apresentar na aula seguinte. A certa altura, quando as estava a ler, deparou com uma que exprimia um desejo fora do vulgar, daqueles que tocam o coração de mãe. Um menino pedia a Deus que o transformasse numa televisão. Ficou tão comovida, que as lágrimas lhe vieram aos olhos. Nesse instante, o marido estava a chegar a casa e, vendo-a a soluçar, perguntou-lhe o que se tinha passado.
­– É isto – diz ela, passando-lhe para a mão uma folha com a redação de um aluno… Ele leu. E dizia assim:

– Senhor, esta noite queria pedir-te um favor. Não é um favor muito grande, mas, para mim, é muito importante. Queria que me transformasses numa televisão e ficasse no lugar dela, para todos se juntarem à minha volta e me darem atenção, ouvirem as coisas que eu tenho para lhes dizer e sem me estarem sempre a fazer perguntas. Queria ter a mesma atenção que a televisão recebe. Ter a companhia do meu pai, quando ele chega a casa, mesmo que venha cansado; quero que a minha mãe vá ter comigo quando se sente sozinha ou triste; que os meus irmãos gostem de brincar comigo; e que a minha família, de vez em quando, deixe de lado as suas preocupações para passar alguns momentos comigo.

2. Quando o marido acabou de ler a redação, disse para a professora:
– Coitado desse menino! Que família ele tem!
A professora levantou os olhos para ele e, depois, comovida, baixou-os novamente, dizendo:
– Essa redação é do nosso filho…

3. Esta redação é a expressão do valor da atenção que os filhos precisam (e esperam) dos pais e que nem sempre têm. A atenção é um gesto de afeto tão natural que nos acompanha durante toda a vida e desde toda a vida, desde que nascemos ou mesmo ainda antes de nascermos. Sem atenção não vivemos. Não existimos para os outros. Existir não é apenas ter saúde e vida; existir é também ser reconhecido e querido pelos outros. É por isso que se diz que o desprezo mata. É pior do que o ódio. Desprezar alguém é o mesmo que ignorá-lo. É um desconhecido. Nem é amigo nem inimigo. Simplesmente, não existe.

4. A necessidade de atenção acompanha-nos pela vida fora, embora, teoricamente, um adulto aguente mais a falta de atenção do que uma criança. Mas até mesmo o adulto, se está no seu trabalho e todos o ignoram, ou mesmo só chefe o ignora, vai sentir-se esmagado, sem vontade de fazer nada. Está ali a mais. De igual modo, se está num grupo de pessoas e ninguém lhe liga importância, vai sentir-se desprezado, uma ilha sem afeto nem importância. Se é assim para o adulto, muito mais é para a criança, que é mais insegura e mais frágil na sua afirmação pessoal. A criança precisa da atenção dos pais para viver e para o seu equilíbrio mental. No dia a dia. O próprio comportamento da criança no desempenho das suas tarefas ou das suas brincadeiras no dia a dia precisa de ser apoiado e seguido com atenção pelos pais, mas isso nem sempre acontece, ou porque andam muito ocupados ou simplesmente porque as ignoram. Quantas vezes já observei nisso em jardins infantis: as funcionárias estão lá, mas apenas a conversar em grupo, ignorando as crianças. Se as crianças recebessem essa atenção, não teriam necessidade de recorrer a comportamentos menos aceitáveis e, às vezes, até radicais.

5. Há pais e des(educadores) que pensam que se pode resolver tudo com reprimendas e castigos. Ainda são adeptos do desumano ditado que diz: quem dá o pão dá o pau. Ou não se lembram que também foram crianças e que elas se devem tratar com compreensão e afeto, ou então também foram vítimas dessa falta de atenção e agora reproduzem-na na relação com os outros. A isso não se chama educação, mas crueldade sem coração. Quem assim pensa nunca saberá que educar é amar e respeitar, é ajudar a descobrir e modelar o seu destino com liberdade. Impor um modo de comportamento pela via do medo e do castigo é criar um escravo. O primeiro e mais eficaz modelo de aprendizagem é a imitação. E só se imita a quem se admira e ama.




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