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Anormais com e sem conta no Facebook

As ideias parvas, às vezes, são apenas ideias parvas. Os jornais dão-lhes excessiva guarida, umas vezes, em artigos de opinião, outras, em opiniões inseridas em notícias. A pequena e média patetice pode coexistir com a grande estupidez, posta ao serviço da modalidade tóxica de um marketing muito agressivo, através do qual se pretende e, frequentemente, consegue impor crenças que empurram para um lugar marginal os que não usam determinados produtos ou serviços.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
12 Ago 2012

Marketing embrulhado em estupidez é, por exemplo, considerar que, como dizia um título da edição online do Jornal de Notícias de sexta-feira, “não ter conta no Facebook pode ser anormal e perigoso”.
A notícia diz que “há empresas norte-americanas que têm muitas reservas na hora de contratar empregados que não tenham conta no Facebook, por considerarem o facto um ‘comportamento suspeito’”. Como sucede habitualmente com as ideias estúpidas, também esta surge corroborada por um especialista. “E há psicólogos da mesma opinião”, regista o JN, que apenas cita um deles.
Refere o jornal que, numa entrevista concedida à revista alemã Der Taggspiegel, o psicólogo Christopher Moeller afirmou que “não ter conta no Facebook pode ser sintoma de uma forma de estar anormal, disfuncional e até perigosa”. Quando corroboram ideias parvas, os especialistas apresentam-se como se fossem os seus guarda-costas. Com um deles por perto, ninguém se mete com uma idiotice. E a do psicólogo alemão é corroborada a matar: Anders Breivik, o norueguês que matou 77 jovens, ou ainda James Holmes, o assassino do Colorado que vitimou 12 pessoas na estreia do novo filme da saga Batman, têm problemas de relacionamento social e não tinham conta no Facebook.
Quem, se viver nos Estados Unidos da América, quiser ser contratado para trabalhar numa empresa e quem, vivendo seja onde for, não quiser correr o risco de, pelo menos aos olhos de certos psicólogos, passar por “anormal, disfuncional e até perigoso” terá de abrir conta no Facebook.
A verdade é que há também “anormais, disfuncionais e até perigosos” que também têm ou tiveram conta aberta, como facilmente se comprova consultando os arquivos do JN, tarefa que teria valido a pena executar se se quisesse poupar os leitores a uma notícia de apologia do Facebook, uma empresa com recente e não muito bem sucedida entrada na bolsa. É que há um bom contraponto ao escrito de sexta-feira no caso, contado há tempos pelo jornal, de um filipino, de 28 anos, chamado Mark Dizon, que matou três estrangeiros, um americano, um britânico e um canadiano, para os roubar. O assassino possuía conta no Facebook, tendo a detenção ocorrido após a polícia confirmar a identidade do assassino na rede social.
Quem quiser sublinhar como é errada a crença alimentada pelo psicólogo alemão tem ao seu dispor uma história que pode ser instrumentalizada para uma estigmatização inversa, uma vez que é susceptível de demonstrar o contrário do que Christopher Moeller disse, e o quão letal o Facebook pode ser nas mãos de gente “anormal, disfuncional e até perigosa”. O caso, noticiado pela BBC no dia 25 de Julho, é o de um assassino que usou quatro perfis falsos no Facebook para manipular e matar uma jovem de 19 anos. A BBC deu conta que o adolescente Tony Bushby, de 19 anos, foi condenado pela justiça britânica pelo assassinato, por altura do Natal, na cidade de Borehamwood, na Grã-Bretanha, da baby-sitter Katie Wynter, com a mesma idade, após tê-la enganado com quatro perfis falsos no Facebook. Tony Bushby criou quatro perfis falsos em nome de Dan Tress, Cyn Darwin, Shane Pleuon e Krystal Stanguard, que, repetidamente, apresentavam a Katie Wynter argumentos para a convencer que Tony Bushby era o rapaz certo para ela.
Aferir a anormalidade, disfuncionalidade e até periculosidade de uma pessoa através dos rótulos dos produtos e serviços que usa não é critério razoável. Como um patrão pode não saber, mas um psicólogo não deve ignorar.




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