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O pesar pela morte do Prof. José Hermano Saraiva

Para quem esteve atento à morte do Prof. José Hermano Saraiva, nas televisões, nos jornais, na rádio, parece que são mais os ódios para com a figura do que os amores. Analisemos o que se passou naquela a que uma certa esquerda gosta de chamar a «casa da democracia». Leia-se Assembleia da República.

José Carvalho
8 Ago 2012

Um voto de pesar pela morte do Prof. José Hermano Saraiva foi apresentado pelos deputados do PSD, do CDS-PP e pelo deputado Rui Santos do PS. O secretário da Mesa da Assembleia, Abel Baptista, que leu o voto, apontou o professor, divulgador da História e ex-ministro da Educação como «uma personalidade incontornável da cultura portuguesa» e endereçou as condolências à família de Hermano Saraiva, enaltecendo, ainda, a sua «dedicação» à História de Portugal e a «perseverança» e «mestria» com que «se dedicou à sua divulgação».
Este voto de pesar teve o apoio do PPD-PSD, do CDS-PP e do PS. Votaram contra os partidos de extrema-esquerda: PCP/Verdes e BE.
O deputado e ex-ministro da Justiça do PS, Alberto Costa, anunciou a apresentação de uma declaração de voto em conjunto com o antigo secretário-geral socialista Eduardo Ferro Rodrigues. Os deputados Delgado Alves e Isabel Moreira do PS, por sua vez, abstiveram-se.
Vejamos o que significa um voto de pesar. Para mim, esse voto transmite um lamento profundo por alguém que partiu e que não queríamos que partisse. Queríamos sinceramente que essa pessoa ficasse entre nós, mas, infelizmente, partiu. É também uma forma pública de mostrar um sentimento nacional à sua família e aos amigos. De forma inversa, votar contra um voto de pesar, deve significar, julgo eu, um desejo claro de que alguém morra ou desapareça. Transparece nesta atitude um sentimento de ódio, de vingança ou de inimizades profundas.
Assim, e para mim, uma abstenção a um voto de pesar, por sua vez, não é nada. É uma atitude amorfa e neutra. Mais: é intelectualmente desonesta.
Quando Álvaro Cunhal morreu (para alguns, um herói da URSS por serviços prestados; para outros, a grande maioria do povo português, um traidor a Portugal), toda a Assembleia da República, da direita à esquerda, votou o pesar e as condolências.
No caso do Prof. Hermano Saraiva revelou-se a qualidade canina da esquerda: PCP/Verdes e BE.
O BE e o PCP/Verdes, que deveriam funcionar como reserva moral do nosso sistema político, uma vez que não estiveram no poder recentemente, já tinham mostrado cobardia ao não terem ido discutir com a «troika» as condições do resgate financeiro; agora, com este caso do Hermano Saraiva, mostram a verdadeira face, fundada na total falta de tolerância para com quem não é dos deles.
Porém, e daquilo que tenho visto, não tenho dúvida que, se este voto fosse a referendo, obteria a maioria absoluta dos resultados.
Analisemos agora a atitude da deputada Isabel Moreira, eleita nas listas do PS. Referiu que aquilo que fez teve única e exclusivamente a ver com uma «decisão pessoal». Mas será que esta atitude é a mais correta?
Parece-me que muitos deputados não têm a verdadeira noção do seu cargo. A ideia do «eu» deve diluir-se na ideia da representação. O que cada um deve fazer, em cada momento, é tentar interpretar o sentir dos eleitores que nele votaram.
Assim, parece-me que esta deputada não tem razão, assim como não têm razão os deputados do BE e PCP/Verdes que deveriam analisar o que estava em causa.
O que se propunha era um voto de pesar pela morte de alguém que foi um divulgador da cultura nacional, que levou muitas pessoas (de esquerda ou não) a visitar monumentos e museus e a comprar livros de História. O passado e as opiniões políticas do visado, parece-me, não estavam sob apreciação. Mas assim se vê a pequenez de um parlamento e de alguns dos seus membros.
A deputada Isabel Moreira, decidiu não apoiar um voto de pesar por um antigo ministro de Salazar. Fico curioso como vai votar a sra. deputada quando for a vez do pai dela, Adriano Moreira.
Recordo que o que estava em causa era homenagear um divulgador da História. O homem que não se importava de ser mal visto pelos seus pares, que nunca gostaram da imagem «popularucha» de contador de estórias da História. Mas esquecem que o Prof. Hermano foi dos poucos que merecem o título de Professor: ensinava e divulgava. Coisa que poucos conseguem fazer.
Era isto que estava em voto: pesar pelo grande homem culto e próximo de todos. Mas a mentalidade tacanha ainda está presa aos fantasmas do passado e é incapaz de separar o historiador das suas ideias políticas (e o Prof. Hermano Saraiva estava retirado da política há décadas).
Goste-se ou não do Homem, merecia um reconhecimento por parte de todos os representantes do povo na Assembleia da República. Mas cada um responde por si e a História dirá de sua justiça quem teve a atitude mais correta.
Vale a pena pensar nisto!




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