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O euro sob ataque

1 A propósito da actual crise que devasta o Ocidente, em especial a zona euro, quase não há dia em que se não fale nos “mercados”! Uns para que “não se sobressaltem os mercados”, outros para “acalmar os mercados”, estes preocupados “como reagem os mercados”, aqueles querendo saber “o que os mercados têm a dizer”; para maior espanto, ouvi mesmo da boca de uma economista, que é preciso ir ver “o que é que os mercados pensam” (!). Assim se criou uma linguagem que parece “personificar” essa espécie de ente mítico-monístico cuja vontade implacavelmente nos (des)governa!

Acílio Rocha
6 Ago 2012

Verdadeiramente, todos nós já entabulámos infindas relações com o mercado – qual “mão invisível” das leis da oferta e da procura –, normalmente por referência a bens físicos, quando comprámos ou vendemos qualquer coisa. Há, no entanto, os denominados mercados financeiros, o mais corrente dos quais é o mercado de dívida pública – os agora referidos a toda a hora, em noticiários e debates. Passe a caricatura: de um lado temos Estados que precisam de financiamento (e alguns Estados da UE puseram-se a jeito, acumulando défices e dívidas); do outro, investidores financeiros (bancos, fundos de investimento, grandes empresas, etc.), respondem a esse financiamento, emprestando dinheiro, que, em troca, e num certo prazo, lhes será pago, mais a percentagem de juros.
Mas, entrementes, há que inocular nos meios financeiros os mais diversos rumores, quanto mais catastróficos melhor – défices, desconfiança, incapacidade de pagar a dívida, necessidade de cortes, etc. –, com vista a criar um certo pânico, chantageando e comprando por um valor muito mais baixo os títulos adquiridos por um valor mais alto. O capitalismo financeiro mostra-se, assim, altamente especulativo, em contraste com o capitalismo industrial (ou outros), que é produtivo por essência. Os tão propalados “mercados” não são, pois, entes abstractos que vigiam por todo o lado a vida económica, mas grupos bem concretos que desregulam os mercados, quais obstinados jogadores de casino, que chegam ao ponto de criar produtos financeiros estranhos – “tóxicos”, como se diz –, desbaratando, se preciso for, a própria economia, sem olhar ao sofrimento das pessoas ou à angústia das comunidades.

2. É neste quadro que se opera um ataque sem tréguas contra o euro, moeda única de 17 Estados-membros da UE. Ora, sabemos como o dólar tem sido o suporte de avultados benefícios angariados por organizações americanas, empresas e multinacionais. No entanto, ultimamente, com a desconexão do dólar do ouro e a deslocalização de centros de produção mundial para Leste, está a diminuir a relevância da moeda americana na economia mundial. Peritos em macroeconomia divergem sobre o futuro da moeda de reserva mundial; se alguns mantêm que não há razão para deixar o dólar, outros prognosticam a formação de várias zonas monetárias (a zona do dólar, do euro e a do yuan), outros opinam que o mundo precisará de uma unidade monetária “principal”, a que o euro corresponde cada vez melhor: é uma moeda estável, por isso mesmo procurada como
moeda de referência no comércio, e, apesar da crise, até mesmo como moeda de reserva.

3. Quando se diz que Portugal vai ter que renegociar os termos da sua ajuda financeira, a informação pode apenas visar o aumento das taxas de juro, atingindo-se em cheio um terceiro país (após a Grécia e a Irlanda); e, após Portugal, por inevitável contágio, a Espanha e a Itália, até à derrocada do euro. Isto só acontece porque a UE se recusa a fazer o que faz qualquer Estado soberano: mais dinheiro em circulação; é o que fazem os Estados Unidos, o Japão, a Inglaterra, etc. É que, por falta de financiamento para comprar matérias-primas, provoca-se a falência de empresas em série, apesar de haver mercado para os seus produtos. O alvo é sempre este: o lucro predatório baseado na manipulação da informação.
O nosso cepticismo quanto à acção da Fitch Ratings, da Moody’s, ou da Standard & Poor’s, baseia-se, desde logo, em que tais agências são todas americanas, detendo, no seu conjunto, mais de 90% do respectivo mercado. Com os potentes ataques contra o euro pretende-se enfraquecer esta moeda face ao dólar, que se quer como única medida de pagamento internacional, conveniente para fazer face à elevada dívida pública americana. Importa perguntar: por que não foram responsabilizadas as agências de rating que falharam rotundamente a avaliação da Lehman Brothers e da Islândia – génese da actual crise?
Neste quadro, as agências de classificação de risco estão na vanguarda da terrível guerra económica e de informação movida, em rede, contra a zona euro. Tal função poderia muito bem competir também, como muitos propõem, a uma agência europeia de análise financeira, que tarda em ser criada. Sem dúvida, será uma responsabilidade histórica imperdoável se os líderes europeus permitirem que o euro possa vir a ser destruído por três empresas privadas norte-americanas.




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