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A ingenuidade

Habituámo-nos a pensar na ingenuidade como defeito feminino. Sim, defeito será, mas exclusivamente feminino… São clássicas as histórias de meninas ingénuas apanhadas nas malhas de um amor que não passa de exploração. E não acontece o mesmo com os homens? Nesses episódios, há sempre um vilão e uma personagem um pouco tonta que cai na armadilha.

Isabel Vasco Costa
6 Ago 2012

No entanto, não é desta ingenuidade que venho escrever, mas daquela em que não se quer ver, ou reconhecer, a bondade. É semelhante à primeira, visto que existe em ambas a cegueira, pateta ou consciente, de não querer reconhecer a realidade, mas difere dela no objeto: em vez de não ver o mal, recusa-se a reconhecer o bem, podendo cair na injustiça.
Em Portugal, estamos a viver um tempo de crise. É verdade que há muitos políticos, empresários, professores, médicos corruptos, mas também existem pessoas honestas, trabalhadoras, cumpridoras, responsáveis e até santas, que vivem ao nosso lado, mas passam despercebidas.
O tema para o artigo surgiu-me ao ouvir falar de uma jovem que estava a terminar o liceu, mas tinha decidido dedicar a sua vida a fazer bem aos outros. Assim, optara por não se casar e, com este objetivo, evitava sair com rapazes. Quando uma amiga a desafiou a acompanhá-la a uma discoteca, recusou o convite, desculpando–se com a sua vocação, bem conhecida dos seus íntimos. A colega insistiu, que não fazia mal nenhum, que não iria perder a vocação por ir uma vez com o grupo, etc.. Então, ouviu uma explicação bem fácil de entender:
– Já reparaste, Manuela, que sou gordinha? Quando passo por uma pastelaria, mesmo com amigas, não entro porque, se entrasse, não iria resistir aos bolos. O resultado da minha atitude é que estou a perder peso. O mesmo se passa com os pubs ou lugares onde os rapazes se encontram com as raparigas. Prefiro não arriscar, sobretudo depois de ver que, com os bolos, estou a ter sucesso: nem lhes toco!
Os pais responsáveis costumam andar dois passos à frente das perguntas dos filhos. É bem fácil responder-lhes acerca da vinda dos bebés ao mundo, se na família os nascimentos são frequentes, e o mesmo em relação à morte. Nenhuma destas realidades é segredo, pois é comum a todas as pessoas. Se forem os pais a explicar, fá-lo-ão com carinho e verdade, não com malícia nem mentiras: os bebés só chegam a este mundo a partir de um pai e de uma mãe; depois da morte, há céu, purgatório e inferno, embora não saibamos bem que tipo de felicidade, castigo ou sofrimento isso quer dizer. Mas sabemos que o céu e o inferno são eternos.
Nos tempos que correm, as atitudes das meninas gordinhas espantam mais pelos altos ideais de servirem os outros que por não comerem bolos. Há tantas mulheres a sujeitarem-se às dietas e operações mais penosas só para emagrecerem uns quilos! Mas a publicidade e a aceitação popular acolhe melhor as dietas que os objetivos nobres. E, no entanto, eles existem! Basta olhar para os casamentos desfeitos. Quer eles, quer elas ouvem logo o “conselho simpático”: “Arranja outra, começa a sair, refaz a tua vida!” E estas pessoas, nada ingénuas, sabendo que todas as atitudes trazem consequências para a sua vida, a vida dos filhos, dos pais, dos colegas de trabalho, da sociedade e para a vida eterna, travam uma luta titânica por manter a família estável e unida, evitando a entrada de elementos estranhos e perniciosos.
Humanamente, estas biografias podem não acabar bem, com um final feliz. Mas para estes heróis, o final é sempre a glória eterna. Não sejamos ingénuos!




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