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Onde estava Deus?

Esta pergunta-desafio ouve-se, muitas vezes, perante uma catástrofe natural, um crime hediondo, o sofrimento de um inocente. Há mesmo quem lhe dê uma forma justificativa da incredulidade (um Deus que permite isto…). E não é fácil dar uma resposta, pois o respeito pela dor torna difícil desmontar friamente algo que, para além do mistério da dor, contém algo de falácia. E eu não vou agora tentar fazê-lo, porque esta interrogação surgiu-me, por estes dias, num contexto totalmente diferente.

P.e Jorge Margarido Correia
3 Ago 2012

Foi ao assistir a essa fabulosa transmissão da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres. É que não sei se as pessoas que mais recorrem à tal pergunta dramática se lembram de fazê-la também nessas circunstâncias.
E, de facto, perante aquela obra-prima de conjugação de tecnologia avançada com a beleza e a sensibilidade humana com o bom humor, e por muito justo que seja atribuir isso ao engenho, arte e trabalho de homens e mulheres concretos, sempre fica essa pergunta: quem deu ao homem estas capacidades? Fez-me lembrar uma vez mais o Salmo:

Como é grande o teu nome, Senhor, em toda a terra!
Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos,
a lua e as estrelas que lá colocastes,
que é o homem para que Vos lembreis dele,
o filho do homem para dele Vos ocupardes?
Fizeste dele quase um ser divino, de honra e glória o coroastes:
deste-lhe poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés.
Como é grande o teu nome, Senhor, em toda a terra!

Onde estava Deus? Estava em tudo e em todos! Mesmo naqueles que não acreditam. E se fazemos essa pergunta quando são muitas vezes os homens que desfiguram a imagem e semelhança de Deus que levam impressa, porque não fazê-la quando essa imagem e semelhança se tornam mais evidentes?
É claro que isso talvez permitisse ir um pouco mais ao fundo da questão e perguntarmo-nos: para além de uma bela canção ao jeito de oração, não poderia haver alguma referência mais explícita ao transcendente? Vendo as inúmeras representações de todos os países de todos os continentes, não é difícil imaginar que muitos daqueles homens e mulheres praticam as mais variadas religiões (cristã, judaica, islão, hinduísmo, animismo, etc.) ou, pelo menos, estão abertos a algo transcendente. A pergunta é: por que prevaleceu como paradigma o daqueles que não acreditam em nada? Mais: os juramentos olímpicos podem, de facto, convocar o respeito de todos, se não há nada de transcendente que os una?
Recorda-me esse elegante desafio intelectual do Cardeal Ratzinger ao filósofo Habermas: a tentativa de construir uma ética universal abrangendo pessoas de todas as crenças e descrenças, a partir de “como se Deus não existisse” é evidente que falhou. Por que não tentar a sua edificação a partir de “como se Deus existisse”? Afinal uma cerimónia como a que Londres nos ofereceu está muito mais perto disso do que poderíamos imaginar.




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