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Ninguém agrada a gregos e troianos

Há dias atrás, fez-se notícia de que o Primeiro-Ministro português, para se exprimir, recorria a vocabulário pouco erudito, a “léxico popular”. Nunca achei, confesso, que o recurso a uma linguagem mais comum, que todos (letrados ou não) entendam e com recurso a expressões populares (desde que não ofensivas ou injuriosas) fosse errado. Sempre achei até que, quando se comunica, deve-se fazê-lo de modo que os destinatários da mensagem a entendam facilmente.

Marcelino Abreu
3 Ago 2012

Aliás, de que serve falar ou escrever, se poucos ou ninguém entender? Se um Primeiro-Ministro fala, não se destinará a sua mensagem a todos e não apenas a alguns dos cidadãos que por ele são governados? Então porquê não deve falar de modo que todos o entendam, mesmo que para isso recorra ao dito léxico popular? Não usamos todos nós léxico popular? Talvez ele seja mais bem entendido se usar um discurso hermético, fechado, que só de dicionário na mão se consegue entender. Claro está que, depois (como a nossa riqueza linguística é tal e uma palavra pode ter diversos significados), andar-se-ia durante tempos e tempos a tentar perceber o que ele disse e a discutir se o que ele disse era, ou não, o que queria dizer. Ou, então, talvez seja preferível aqueles discursos típicos dos políticos que ficam pelas meras intenções, ou, ainda, aqueles discursos em que falam, falam e não dizem nada (como dizia um antigo professor meu que muito prezo: “aquilo espremido dá sumo de nabo”).
Confesso que não entendo toda esta novela. Talvez, a sua razão de ser seja a de que, afinal, não evoluímos assim tanto desde 1888, ano em que Eça de Queirós publicou, no Porto, o seu livro, “Os Maias” (um livro, no meu entender, muito atual, que todos deveriam ler ou reler), onde abunda a crítica à nossa sociedade de então que vivia de luxo e opulência, preocupada com aparências e não com a autenticidade e o essencial.
  Se assim for, é pena, porque andamos a perder tempo ou, como se diz no léxico popular (per-
doem-me os “eruditos”) “a marcar-passo”.
Mas se o problema dos críticos não está nas palavras empregues (perdão! nos vocábulos usados), mas no facto de ele se estar mesmo a “lixar para as eleições”, então ainda os entendo menos.
É que eu sempre pensei que a missão primeira de um deputado ou de um governante fosse a defesa dos interesses do seu país. Sempre pensei que isso deveria ser a sua primeira e única preocupação. Aliás, é para isso que eles são eleitos. Não são eleitos para tomarem medidas que lhes permitam eternizarem-se no poder ou as que mais lhes convém a eles governantes. Não! Foram eleitos, isso sim, para defender os interesses do país, para criar condições que permitam ao país crescer economicamente e em bem-
-estar para todos.
Talvez isto nos soe algo de estranho e a que não estamos habituados, mas é para isso que os governantes foram eleitos: para servir o país; para governar, ainda que isso lhes possa custar não serem reeleitos no ato eleitoral seguinte.
O importante é fazer-se algo pelo país que bem precisa e deixemo-nos de minudências (para não usar a expressão empregue pelo outro senhor, essa sim, talvez um pouco obscena) que não passam de “fait divers”.
Se Wiston Churchill, em Inglaterra, tivesse pensado no que lhe era mais conveniente, talvez não tivesse perdido as eleições após a II Guerra Mundial, mas hoje a Inglaterra talvez não fosse o que é e ele fosse recordado pela negativa.
Confesso que tudo isto me causa estranheza e faz recordar a “A fábula do velho, o menino e o burro”, a qual aqui não vou escrever para não tornar o texto demasiado longo, mas deixo o convite a que a procurem na internet e a leiam. 
 Como diz o nosso povo: “ninguém agrada a gregos e troianos”, ou então, “é-se preso por ter cão e por não ter.” Já São Francisco de Assis dizia: “comecemos agora porque até aqui nada fizemos”.
Por isso, e se me é permitido opinar: um governante não foi eleito para se servir, mas para servir; não tem, nem pode, passar o seu mandato a pensar no ato eleitoral seguinte e se as suas decisões a tomar o podem, ou não, nessa ocasião prejudicar. Tem, isso sim, que fazer o que é necessário em benefício dos cidadãos e do país. Por isso, faça-se o que tem que ser feito e rápido, pois durante muito tempo nada se fez.
Até um dia destes.




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