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Como se amansam cachorros

Era eu pequeno. Não teria mais de oito, ou nove anos. Sempre que, a pé, ia para a escola, ou para a catequese, tinha de passar ao lado de uma casa, onde havia, junto à porta, preso, um cachorro muito bravo, que me ladrava, furioso, e tentava libertar-se do cadeado, para me atacar. E eu, com uma pedra na mão, para lhe atirar, se ele se soltasse, o que nunca aconteceu, passava muito depressa, encostado à outra margem do caminho.

Domingos Gonçalves
1 Ago 2012

A cena repetia-se ao longo da semana, todas as vezes que tinha de passar por aquele sítio.
Reparei, contudo, que ao domingo, quando ia à missa acompanhado pelo meu avô, o cachorro em vez de nos ladrar, ficava muito manso, agitava a cauda, todo contente, e seguia-nos com o olhar, até desaparecermos na primeira curva do caminho.
Intrigado com aquela mudança de comportamento do animal, e movido, talvez, pela curiosidade da criança que, então, era, perguntei:
– Ó avô! Quando passo aqui sozinho, o cão desfaz-se a ladrar. Se a corrente a que está preso se rompesse, ele ferrava-me com toda a certeza. Quando venho contigo, ele não nos ladra, e fica todo contente. É por seres grande?
Respondeu-me:
– Não, filho! Não é por ser grande.
– Então, porque é que ele só me ladra a mim? É por causa de eu ser pequeno?
– Nada disso! – Respondeu-me. Os cães também ladram às pessoas grandes.
Continuei:
– Então, porque é que não te ladra?
Enquanto caminhávamos, diz-me ele, muito sereno:
– Os cães também se amansam.
– Como? – Continuei a perguntar.
– Dá-se-lhe uma côdea.
Aconselhou-me:
– Quando passares de novo por aqui, não pegues numa pedra. Traz, em vez disso, uma côdea de pão, e atira-lha. Depois, durante alguns dias, faz a mesma coisa.
Eu segui-lhe o conselho.
No dia seguinte, antes de sair para a escola, peguei, em casa, num bocado de pão e, ao passar pelo sítio onde o cachorro estava preso, quando ele começou a ladrar, atirei-lho, e segui o meu caminho.
Reparei que o animal hesitou entre ladrar, e saborear a côdea. Mas, era pão. Quando eu passei, comeu-a.
No dia seguinte, repeti o gesto. Quando me aproximei do animal, atirei-lhe outra côdea. Ele olhou para mim, meio desconfiado, foi buscar a côdea, comeu-a, e já não me ladrou.
Nos dias que se seguiram, fui repetindo o gesto, e quando passava, em vez de me ladrar, furioso, o animal olhava-me, agora muito meigo, como que a pedir que lhe desse qualquer coisa. Ficou meu amigo. Bastaram algumas pequenas côdeas, retiradas do pão velho, que a minha mãe reservava para dar às galinhas, para amansar o bicho.
Hoje, volvidos tantos anos, ressalvando as diferenças da racionalidade, no mundo da política aplica-se muitas vezes, com a mesma eficácia, a velha sabedoria do meu avô.
Contaram-me que havia, não há muito tempo, um jornalista que, no meio de comunicação social em que trabalhava, era demasiado cáustico em relação a determinado político. Não lhe perdoava o mínimo deslize. Onde ele estivesse, aparecia, na busca de algo que servisse para arruinar a imagem do alvo escolhido.
Porém, a determinada altura, calou-se. As críticas ao tal político desapareceram do jornal.
Um leitor, habituado a ler, com certo prazer, tudo quanto o tal jornalista escrevia, e o certo é que o dizer mal é mais lido do que o dizer bem, comentou, com os amigos;
– Fulano, calou-se. Deixou de escrever sobre sicrano. Estará doente?
– Diz-lhe alguém:
– Nada disso. Deram-lhe uma côdea, e ele calou-se.
– Uma côdea?
– Sim! Uma côdea, – disse o outro.
– E agora?
– Agora, comeu a côdea, e deixou de ladrar. Primeiro, calou-se. Depois, em vez da crítica, passou ao elogio.
– Só por causa de uma côdea?
Depois de comer a primeira, por certo que lhe deram outras.
Depois de escutar esta história, pensei para comigo:
– Como era inteligente, e culto, apesar de analfabeto, aquele meu avô!
Hoje, os políticos, participam da mesma sabedoria. Só há uma diferença: Ele, utilizava as côdeas – simples bocados de pão velho – para amansar os cachorros.
Os políticos, – mas nem todos, como é óbvio –, utilizam as côdeas para calar certos adversários, ou para os convencer a virar a casaca. Os métodos, são os mesmos. Os objectivos, é que são diferentes.
De qualquer modo, uns e outros amansam-se com simples côdeas. Para os cachorros, basta uns bocados de pão seco.
Para os políticos, as côdeas têm natureza mais valiosa.
Mas nem por isso deixam de ser côdeas!




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